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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Génesis segundo Sebastião Salgado


António Nobre



Fazia hoje anos o poeta António Nobre. Reuniu todos os seus poemas num só livro, a que chamou obviamente "Só". A sua vida é trágica e curta. Deixou-nos belos poemas, diria únicos. Aqui fica um poema seu  sobre outra gesta de valentes portugueses, os poveiros.


Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores! 
Na Agoa quizera com vocês morar: 
Trazer o lindo gorro de trez cores, 
Mestre da lancha Deixem-nos passar! 

Far-me-ia outro, que os vossos interiores 
De ha tantos tempos, devem já estar 
Calafetados pelo breu das dores, 
Como esses pongos em que andaes no mar! 

Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos! 
Não seres tu, para eu o ser, poveiro, 
Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»! 

No alto mar, ás trovoadas, entre gritos, 
Promettermos, si o barco fôri intieiro, 
Nossa bela á Sinhora dos Afflictos! 

António Nobre em "Só"




terça-feira, 6 de agosto de 2013

Iliopouli

Mesmo na cidade do sol
não há dias perfeitos.

Às vezes o vento
varre a luz presa nas árvores
e os gatos deixam temporariamente
de pousar para os poemas.


Nota: "Iliopouli" significa "Cidade do Sol" em grego - Helio (sol)+Pólis (Cidade). É ainda um subúrbio  de Atenas.




Geia sas

Que a vontade nunca te falte,
Ó soldado da luz,
Sê  firme, forte e bem aventurado.

Estou certo que as montanhas  saudar-te-ão
E de outros portos afamados
Virão canções sobre a tua vontade indómita
Anónima.

Que a misericórdia dos deuses te seja concedida
E os peixes te devolvam
Toda a prata que suas escamas carregam.

Eu te saúdo
Vizinho da minha hesitação ,
Reflexo informe dos meus medos.

Eu te saúdo
E aguardo curioso
Pela tua saudação.


"Geia Sas" significa " Sê saudável e forte"  em grego e é utilizado para cumprimentar - o equivalente a "Olá".
Este poema é dedicado ao meu amigo Spirus Denaxas que me explicou de uma forma vibrante o significado desta palavra em grego. Nunca mais esquecerei aquela lição.



terça-feira, 2 de julho de 2013

O último voo

Aproveita o teu último voo,
criatura.

Mais tarde ou mais cedo,
o chão do paraíso fugir-te-á.

És mais breve do que pensas
e estás inquinada de desejo.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A crise dos 40 - Parte II

Há alguns posts atrás, transcrevi neste blogue um extrato do genial poema de Fernando Pessoa, "Tabacaria", onde estabelecia um paralelo entre esse extrato e a famosa crise dos 40.

 Para ficar de consciência tranquila, não podia deixar de transcrever um segundo extrato de outro poema genial, o "Relatório e Contas" de Ruy Belo, extraído do seu livro "Boca Bilingue". Aqui, como na "Tabacaria", a abordagem do arrefecimento da vida humana é tratada, a meu entender, de forma sublime:

"Setembro na verdade é mês para voltar
Podes tentar ainda alguns expedientes respeitáveis
multiplicar diversas diligências nos ameaçados cumes dos outeiros
ser e não ser fugir do rótulo aceitar e esquivar o nome fixo
E no entanto é inevitável: a temperatura descerá mais dia menos dia
Calas-te então cumprido como um rosto e puxas toda a tarde
sobre esse corpo que se estende e jaz
Andaste de lugar para lugar e deste o dito por não dito
mas todos toda a vida teus credores saberão onde encontrar-te
pois passarás a estar nalguma parte
Tens domicílio ali que a terra sobe levemente
e toda a tua boca ambiciosa sabe e sente quanto barro encerra"


Ruy Belo

"Boca Bilingue"

domingo, 16 de junho de 2013

Coisas simples

Há coisas simples e agitadoras. Coisas que destroem para que seja possível reconstruir. Tal como a renovação celular, precisamos de destruir regularmente as camadas de verniz que colocamos na pele para que os poros respirem melhor. Precisamos da loucura para continuarmos lúcidos.



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