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terça-feira, 2 de julho de 2013

O último voo

Aproveita o teu último voo,
criatura.

Mais tarde ou mais cedo,
o chão do paraíso fugir-te-á.

És mais breve do que pensas
e estás inquinada de desejo.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

A crise dos 40 - Parte II

Há alguns posts atrás, transcrevi neste blogue um extrato do genial poema de Fernando Pessoa, "Tabacaria", onde estabelecia um paralelo entre esse extrato e a famosa crise dos 40.

 Para ficar de consciência tranquila, não podia deixar de transcrever um segundo extrato de outro poema genial, o "Relatório e Contas" de Ruy Belo, extraído do seu livro "Boca Bilingue". Aqui, como na "Tabacaria", a abordagem do arrefecimento da vida humana é tratada, a meu entender, de forma sublime:

"Setembro na verdade é mês para voltar
Podes tentar ainda alguns expedientes respeitáveis
multiplicar diversas diligências nos ameaçados cumes dos outeiros
ser e não ser fugir do rótulo aceitar e esquivar o nome fixo
E no entanto é inevitável: a temperatura descerá mais dia menos dia
Calas-te então cumprido como um rosto e puxas toda a tarde
sobre esse corpo que se estende e jaz
Andaste de lugar para lugar e deste o dito por não dito
mas todos toda a vida teus credores saberão onde encontrar-te
pois passarás a estar nalguma parte
Tens domicílio ali que a terra sobe levemente
e toda a tua boca ambiciosa sabe e sente quanto barro encerra"


Ruy Belo

"Boca Bilingue"

domingo, 16 de junho de 2013

Coisas simples

Há coisas simples e agitadoras. Coisas que destroem para que seja possível reconstruir. Tal como a renovação celular, precisamos de destruir regularmente as camadas de verniz que colocamos na pele para que os poros respirem melhor. Precisamos da loucura para continuarmos lúcidos.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

"O que é a vida?", segundo Kierkegaard

Todos os dias somos confrontados com  citações de grandes pensadores. Estas grandes frases podem
ler-se nos jornais, nas redes sociais ou mesmo se fizermos uma consulta nos motores de pesquisa. 

Algumas delas, que nos parecem brilhantes à primeira leitura, depressa perdem  a genialidade  se as analisarmos com um olhar mais crítico. As piores de todas parecem  slogans publicitários tal a sua falta de sustentabilidade e sensatez.

Esta semana, porém, li uma citação que me fascinou. E quanto mais penso nela, mais me  parece fantástica e reveladora. Escreveu-a Soren  Kierkegaard. 









segunda-feira, 3 de junho de 2013

Wagner em versão " Pop Art "

O meu amigo Ricardo Simões tem duas costelas, uma wagneriana e outra de artista plástico. Resolveu juntar as duas e eis um "Wagner Pop Art Version".

Se ainda houvesse espaço social  para escândalos, depois da invenção dos jornais tablóides, este seria um estrondo. Infelizmente, esta imagem, nos dias de hoje, é apenas um barulhinho. Mas que gostei , gostei.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

32ª aniversário do Teatro Passagem de Nível - Amadora

O Teatro Passagem de Nível fez 32 anos. O meu amigo e colega da mesa da Assembleia Geral do TPN, Domingos Galamba,  pediu-me para fazer um dos discursos. Nunca tinha escrito nenhum. Aqui fica para memória futura:

Exmos. Senhores (...)

Assim como o teatro se representa tradicionalmente por duas caras, uma triste, a do drama, e a outra alegre, a da comédia, também o Passagem de Nível, ao longo destes 32 anos, tem os seus sentimentos conflituantes.
Tem a saudade bonita de ter trazido a colaborar nos seus projetos um conjunto de personalidades que bastante nos honram, e passo a citar alguns deles, uns felizmente vivos e outros que fisicamente já não estão entre nós. Chamam-se ou chamaram-se Joaquim Benite (Encenador), Mário Viegas(Ator), Jaime Salazar Sampaio(Dramaturgo), Jorge Colombo (Cenógrafo), Fernando  Filipe (Cenógrafo), Carlos Correia (escritor) - só para referir ou lembrar algumas figuras que connosco trabalharam ou colaboraram, porque existem existem muitos mais que mereciam a honra de uma referência.

 Mas temos também a outra máscara, a da alegria, a alegria de termos  ajudado a subir ao palco muitas gerações de jovens como os casos mais relevantes de Mafalda Vilhena e Dinarte Branco   e outros menos jovens que entre as nossas paredes de ilusão puderam também sonhar, revelar-se e ao contrário do que se pensa, ter o privilégio de retirar as máscaras para subir ao palco ou ajudar os outros a subirem-no. Porque o teatro amador, não são só autores, atores e encenadores, mas um conjunto de pessoas que voluntariamente dão o seu tempo livre para esta causa nobre e que eu aproveito para saudar.

Ao longo destes anos, formou-se uma corrente entre gerações, sensibilidades e caminhos que se cruzam no palco, nos ensaios, no foyer, nas bilheteiras, nos espetáculos itinerantes. Tem sido esta, como sugere o nome do grupo, a nossa missão: estabelecer passagens entre duas margens, entre dois níveis de cidadania e humanismo, entre aquilo que cada um é e aquilo que porventura será no futuro. Não acredito que alguém tenha participado na nossa vida associativa através dos espetáculos, dos cursos de teatro, dos prémios literários ou dos festivais de teatro e não tenha saído mais humanamente mais rico do que entrou. Esse é o nosso orgulho. Esta será sempre a nossa  esperança. 

Quanto ao futuro ? Não tenhamos medo dele. O teatro coabitou com muitas crises históricas, guerras e mil e uma revoluções tecnológicas e políticas. Contudo o teatro esteve, está e estará sempre por todo o lado. Da China ao Canadá, do teatro nacional à mais humilde sala do mais recôndito lugar da terra. Nesse futuro, o Passagem de Nível será um espaço para a refletir a história, para os autores de língua portuguesa e para a cidade da Amadora.
Mas também um espaço de procura, de inquietação e provocação aos mitos do senso comum, às verdades servidas já cozinhadas pelos media.


Assim permita a nossa humilde arte e esta força suave de quem acaba de fazer  32 anos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A "Tabacaria" e crise dos 40


Sortudos aqueles que chegam à meia idade e não subscrevem estes versos do Pessoa. Eu, à exceção do último verso, subscrevo-os. Que génio!



Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Álvaro de Campos em “Tabacaria
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