segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
sábado, 26 de janeiro de 2013
MUDE
MUDE é mesmo mude, isto é, um apelo constante à alternativa. Não admira que "Design" se dê bem com a "Democracia". MUDE é o Museu do Design na Rua Augusta (Já perto do Arco da citada rua).
MUDE é um museu tão diferente que é grátis e está ainda e para sempre em construção. Aliás a sua estética é exatamente essa: "Em construção", mostrando as paredes sem acabamentos - como se fossem algo por terminar ou já devoluto. Só por isso transmite-nos uma mensagem de mudança contínua.
No piso térreo, apresenta uma rápida mas concisa história do design nos últimos 50 anos. No 1º andar, uma exposição em redor das indumentárias do Fado, com forte destaque para o guarda-roupa de Amália Rodrigues. No 2º piso, recria o design aplicado pela FRESS (Fundação Ricardo Espírito Santo Silva) naquele mesmo edifício, onde funcionava o Banco Nacional Ultramarino (BNU) numa exposição denominada: "Nacional e Ultramarino. BNU e a arquitectura do poder: entre o moderno e o antigo".
Django
"Django" é tarantino, morricone, spaghetti e ketchup. Estes 4 fatores dizem respeito à música, à narrativa, ao argumento e sobretudo ao estilo peculiar deste autor. Tarantino traz de novo à superfície a temática racista na perspetiva sulista (2 anos antes da guerra da Secessão). Parece um tema esgotado, mas Quentin recicla-o, da melhor forma, com a criação de um Western com pradarias, vilões, xerifes, heróis improváveis, cavalos e, claro está, muitos balázios e partes do corpo humano esfaceladas ou mesmo completamente arrancadas.
Quantos aos atores tem uma interpretação simples, na melhor aceção da palavra. Há quase um toque de farsa no estilo da representação. Parabéns também pela banda sonora que aproxima as cenas do publico de uma forma magnífica - aquele Hip-Hop durante a última (e crucial) cena de tiroteio que opõe Django à canalha sulista é uma pérola.
Numa perspetiva muito pessoal, "Django" é univocamente um Tarantino e só por isso um filme juvenil. Mas sabe sempre bem, alimentarmos a juventude que nos habita numa sexta-feira à noite.
PS. Se alguma vez tiver um gato preto, vou chamar-lhe Django.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
sábado, 19 de janeiro de 2013
A casa das histórias e a casa do mar
A natureza estava tão agreste que me apeteceu ver o mar - o mar verdadeiro, salgado, indomável e em fúria. Pensei em Cascais. E lá fui. Decidi visitar a Casa das Histórias da Fundação Paula Rego e o Museu do Mar Rei D.Carlos
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| Pormenor do Museu do Mar ( Sala dedicada à Pesca ) |
Tenho a dizer que foram excelentes escolhas. A Casa das Histórias pela incontornável qualidade da artista e o Museu do Mar pela diversidade do acervo e a ligação da vila de Cascais e suas gentes ao mar . O mar que surge de duas formas no história de Cascais. A primeira, através da economia natural da população local que desde sempre encontrou no mar, através da pesca, a sua subsistência e o seu desenvolvimento social. Depois através dos Braganças, quando D. Luis decidiu transformar a casa do governador em paço real, onde a família real ia a banhos. A ligação de D.Luis I e do seu filho D.Carlos I ao mar era grande, profunda e extensa nos interesses. Assim, Cascais ficaria ainda ligada à exploração arqueológica do mar, à biologia marinha, à náutica de recreio e à Marinha de Guerra (D.Carlos era oficial da Marinha de Guerra). O Museu do Mar explora todos estes os vectores de uma forma singela, mas muito agradável.
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| A Casa das Histórias da Fundação Paula Rego |
Quanto à exposição da Paula Rego, cumpre-me dizer que a considero uma artista plástica de dimensão universal. O seu mundo onírico e a forma como cruza esse mundo todos os outros estados mentais humanos (medo, submissão, desejo,...) são fantásticos. A sua capacidade narrativa é notável. Diria que as histórias abordadas começam muitos antes dos quadro e permitem ao observador terminá-las muito depois.
É pena não existirem mais obras suas na Casa das Histórias, onde repousam algumas paredes pouco preenchidas. Quando o espectáculo é bom, temos sempre pena quando chega ao fim.
É pena não existirem mais obras suas na Casa das Histórias, onde repousam algumas paredes pouco preenchidas. Quando o espectáculo é bom, temos sempre pena quando chega ao fim.
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| Pillowman - um tríptico genial da pintora portuguesa |
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Logo por debaixo da pele...
"Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville " - Paul Verlaine (1844-1896)
Ele estava desesperado e sem boca. Inflamado e sem inchaço aparente. Queria ser um poeta melhor, mas havia uma extensa porção de razão que lhe faltava ainda visitar. Para além desse desafio, choviam demasiadas preocupações dentro dos seus versos. Queria ser um engenheiro reconhecido entre os seus pares, mas apenas construía, num silêncio desvairado, castelos de éter. Agora ele percebia porque foi sempre avesso aos atributos com que os outros o queriam enjaular, tão avesso à especialização dos sentimentos, tão inquieto entre os vidros do pequeno quotidiano. Não queria limites e só por isso corria nas planícies de palavras. Escrevia espirais para se embriagar, linhas paralelas, para ter uma singela sensação de infinito. Escrevia também rectas concorrentes pelo prazer de conhecer alguém. E assim preencher os momentos raros de solidão indesejada.
Tinha quatro gatos em casa e nenhum possuía nome.
Teatro era a palavra mais certa para definir a viagem que ele presumia fazer pela vida adentro. Uma viagem que, tirando ele, ninguém via ou ouvira falar. Uma viagem apenas fantástica porque ele mesmo se enlouqueceu em consciência, para distorcer o tédio que o enrolava como uma onda e o atirava à praia.
Devido à sua relutância em ser nomeado sempre pela mesma palavra ou reconhecido por um rosto apenas, gostava que o chamassem somente de ator, o senhor ator. Estava convicto que eram sobretudo os substantivos comuns que religavam os homens diante das coisas. Seria um daqueles atores que se partem em cacos e que se atiram depois pelos palcos dispersos na cidade de Deus. Esse Deus só às vezes visível e tangível, mas em quem tinha a preciosa esperança da sua redenção.
Devido à sua relutância em ser nomeado sempre pela mesma palavra ou reconhecido por um rosto apenas, gostava que o chamassem somente de ator, o senhor ator. Estava convicto que eram sobretudo os substantivos comuns que religavam os homens diante das coisas. Seria um daqueles atores que se partem em cacos e que se atiram depois pelos palcos dispersos na cidade de Deus. Esse Deus só às vezes visível e tangível, mas em quem tinha a preciosa esperança da sua redenção.
Tomou mais um ansiolítico como quem se embrenha num exercício de Yoga. Apesar do desalento, não desistia. "Ó meu Deus, como posso eu desistir antes de começar sequer?" - pensava ele e ria por dentro. O desespero é absurdo e o absurdo é ridículo e o ridículo fazia-o rir. Por isso, gostava tanto de rir. Porque conhecia absolutamente o absurdo e a loucura que dele deriva.
Abriu o móvel da sala e escolheu um dos álbuns habituais. Meteu a "Inquietação" do José Mário Branco a tocar: "Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer/ Qualquer coisa que eu devia resolver/ Porquê, não sei/ Mas sei/ Que essa coisa é que é linda". Estes versos soavam-lhe como um hino. Logo, a seguir pôs a tocar um samba antigo para compensar tanto lirismo que, em contacto com os ansiolíticos, podia acordar o vulcão cardíaco e incendiar os olhos da razão.
Abriu o móvel da sala e escolheu um dos álbuns habituais. Meteu a "Inquietação" do José Mário Branco a tocar: "Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer/ Qualquer coisa que eu devia resolver/ Porquê, não sei/ Mas sei/ Que essa coisa é que é linda". Estes versos soavam-lhe como um hino. Logo, a seguir pôs a tocar um samba antigo para compensar tanto lirismo que, em contacto com os ansiolíticos, podia acordar o vulcão cardíaco e incendiar os olhos da razão.
Se tivesse sido músico ou pintor ou escultor, teria concertos e exposições e galerias e alunos e discursos, mas era apenas um auto-determinado ator e todo o ator é um poeta se verdadeiramente o for. Porque o poeta inventa o mundo inteiro por um breve instante. Depois mete-se dentro dele e os outros acreditam na sua ilusão. Mais tarde, fecha-se o pano. Alguns espetadores aplaudem por pena. E o poeta ali fica a sufocar em realidade, como um peixe no cais, ainda aturdido pelo sonho, pelas luzes, pelos aplausos com que os outros brindaram a sua nudez.
Ser poeta é querer estar nu, mesmo que o granizo não dê tréguas. Por isso, todos aqueles heterónimos, pseudónimos, suicídios, afastamentos, bebedeiras secas ou molhadas são apenas fugas feitas por pudor e restos de preconceito. Por isso, aquele frio que faz ansiar por outro corpo que nunca chega.
Dizem que demasiado oxigénio mata.Talvez por isso ele recusava respirar ou deixar correr qualquer corrente de ar pela ferida aberta. Não gritava, não inspirava, não suspirava e não morria. Se faz sentido para um morto, não beneficiava um vivo levemente inquieto, como ele era.
Chovia lá fora. O comboio, como habitual, passou perto da janela e estremeceu-lhe o alento. Mas passava sempre. Passava e nunca ficava, ao contrário daquele desespero sem boca sequer.
Dizem que demasiado oxigénio mata.Talvez por isso ele recusava respirar ou deixar correr qualquer corrente de ar pela ferida aberta. Não gritava, não inspirava, não suspirava e não morria. Se faz sentido para um morto, não beneficiava um vivo levemente inquieto, como ele era.
domingo, 13 de janeiro de 2013
A tempestade
"A vida não é esperar que a tempestade passe. É dançar à chuva". Parece uma frase optimista, mas não é. Significa que entre as tempestades apenas sobra tempo para recuperar as forças. Um tempo ínfimo. Um tempo demasiado breve, mesmo para o singelo exercício da dança.
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