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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bendito caos

A vida não está por ordem alfabética. Ficamos surpreendidos quando o caos surge e obriga-nos a mudar de planos.

Depois do casamento acabado recomeça-se a vida de solteiro. Volta-se a casa dos pais ou às noites de sábado com as amigas do liceu.

Regressamos à escola ou à "nossa terra" porque ficámos desempregados.

É assim. Juntamos todas as cartas  já jogadas, embaralhamos-las e distribuímos-las de novo. Até pode ser que o jogo nos saia de feição. Com muitos ases e trunfos ou talvez não.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

o hábito do acaso

entre  detalhes
escondemos a salvação e a danação

olhando o céu limpo de maio
esquecemos-nos deles

depois
sem darmos conta
falhamos ou não

oremos por agora
ao pequeno deus do acaso


domingo, 15 de abril de 2012

O Chico



Descobri a música do Chico Buarque quando era adolescente. Estavamos no início dos anos 80. Gostava das letras e da simplicidade da música (MPB) que vinha ao encontro da revolução musical portuguesa, onde surgiu também um imenso caudal de produção de música popular  (Trovante, Vitorino, Sérgio Godinho, ...). Ouvia repetidamente a cassete verde do "Chico e Caetano juntos ao vivo" que um amigo me emprestara (O mesmo amigo que me apresentou o FMI do José Mário Branco).

Ouvia-o e não sabia se eram as ninfetas do Liceu que me faziam gostar das suas músicas ou o contrário.  Mais tarde, todos aqueles que me conheciam os gostos  encheram-me de "vinis" do Chico nos "Natais" e "Aniversários". Vi-o uma vez apenas no Campo Pequeno. Timido, honesto, humilde e só por isso um gigante gracioso da cultura luso-brasileira.  Gostava quando ele vinha a Portugal e jogava a sua "peladinha" com os gadelhudos jogadores daquela altura. Mais tarde, li os vários livros dele, mas foi com o "Leite Derramado" que fiquei fã também da sua escrita.

Gostava de o ver mais uma vez. Agora que já entrei nos quarenta, seria um ajuste de contas comigo através de todas as músicas dele que marcaram aqueles que como eu as ouviram e as sentiram.

Todos precisamos de heróis. Eu não escapo à regra. Se mais não fosse, valeu pena ter nascido para conhecer  a criação do Chico.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

A horta


Que calma superlativa tem esta horta! Que enlevo e expoente máximo da civilização!

As árvores certas, no lugar certo. Enquanto a luz  amorna a terra fecunda, aguardando uma benfazeja semente.

Na linha do horizonte, algumas montanhas ensaiam  vagas de mar  nas suas próprias silhuetas. Como se uma calmaria se  espraiasse em profundidade e até à eternidade.

De regresso ao microcosmos, uma formiga ensaia o seu lugar aqui. Da mesma forma, eu o faço com a minha literatura. Com as suas antenas, a formiga experimenta aqui, depois acolá. Sabe-se lá o que procura ? Também eu não sei o que procuro. Sempre me questionei sobre a função da literatura ? E para que serve um poeta ?

Talvez ser poeta sirva apenas para colocar esta pequena horta do fim-do-mundo, num lugar de deuses e deusas, num Olimpo outra vez pastoral, perfeito como uma cantata polifónica, onde os sobreiros são tenores e os chamarizes, mega-sopranos temíveis, temperando a dimensão do silêncio com o estrilho do seu canto.

O poeta deve ter a pretensão de pegar carinhosamente nesta horta e arrancá-la sem a arrancar. Levá-la daqui para onde a horta não exista, mas seja necessária. Para quem não tenha uma horta - ou apenas a tenha virtualmente - consiga sentir o cheiro, a placidez, o optimismo, a modéstia honrada que tem uma horta em Salvaterra do Extremo (Idanha Nova - Portugal).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Beira Interior

                                                                                         Ao Joaquim Cardoso Dias

O tempo parou. As pedras descansam. E os pardais treinam  retórica sabe-se lá porquê...

As ovelhas e os poços refletem o pedido tímido da primavera e, por agora, recusado.

Mas, junto à devesa das oliveiras, avança a fibra ótica, imaginem!
Ó século XXI, onde os exércitos marcham dentro de fios, para impor a Pax Romana.

Estribilhos de melros enquadram  a canção de uma betoneira.

Agora o tempo volta avançar, em círculos, numa tontura mecânica.

Quando a betoneira pára de vez, a realidade esfarela-se. E as hercúleas formigas  constroem, com essas migalhas, um novo império interior. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Primeiro é-se e depois demonstra-se porque se é



"Porque é que foste para jornalismo ? Uma vez contaste-me, achei tanta piada. Mas o que tem mais piada é tu acreditares na causa e efeito. Porque primeiro é-se e depois demonstra-se porque se é" - escreveu Vergílio Ferreira no seu romance "Até ao fim".

Esta pérola do existencialismo cristão de Vergílio Ferreira é afinal uma frase de um grande carácter pedagógico. Um conselho válido para qualquer jovem que acabou de apanhar "o comboio da vida".
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