FAZ-TE MEMBRO DESTE BLOG E RECEBE NOTIFICAÇÕES DOS NOVOS POSTS

quinta-feira, 10 de maio de 2012

o hábito do acaso

entre  detalhes
escondemos a salvação e a danação

olhando o céu limpo de maio
esquecemos-nos deles

depois
sem darmos conta
falhamos ou não

oremos por agora
ao pequeno deus do acaso


domingo, 15 de abril de 2012

O Chico



Descobri a música do Chico Buarque quando era adolescente. Estavamos no início dos anos 80. Gostava das letras e da simplicidade da música (MPB) que vinha ao encontro da revolução musical portuguesa, onde surgiu também um imenso caudal de produção de música popular  (Trovante, Vitorino, Sérgio Godinho, ...). Ouvia repetidamente a cassete verde do "Chico e Caetano juntos ao vivo" que um amigo me emprestara (O mesmo amigo que me apresentou o FMI do José Mário Branco).

Ouvia-o e não sabia se eram as ninfetas do Liceu que me faziam gostar das suas músicas ou o contrário.  Mais tarde, todos aqueles que me conheciam os gostos  encheram-me de "vinis" do Chico nos "Natais" e "Aniversários". Vi-o uma vez apenas no Campo Pequeno. Timido, honesto, humilde e só por isso um gigante gracioso da cultura luso-brasileira.  Gostava quando ele vinha a Portugal e jogava a sua "peladinha" com os gadelhudos jogadores daquela altura. Mais tarde, li os vários livros dele, mas foi com o "Leite Derramado" que fiquei fã também da sua escrita.

Gostava de o ver mais uma vez. Agora que já entrei nos quarenta, seria um ajuste de contas comigo através de todas as músicas dele que marcaram aqueles que como eu as ouviram e as sentiram.

Todos precisamos de heróis. Eu não escapo à regra. Se mais não fosse, valeu pena ter nascido para conhecer  a criação do Chico.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

A horta


Que calma superlativa tem esta horta! Que enlevo e expoente máximo da civilização!

As árvores certas, no lugar certo. Enquanto a luz  amorna a terra fecunda, aguardando uma benfazeja semente.

Na linha do horizonte, algumas montanhas ensaiam  vagas de mar  nas suas próprias silhuetas. Como se uma calmaria se  espraiasse em profundidade e até à eternidade.

De regresso ao microcosmos, uma formiga ensaia o seu lugar aqui. Da mesma forma, eu o faço com a minha literatura. Com as suas antenas, a formiga experimenta aqui, depois acolá. Sabe-se lá o que procura ? Também eu não sei o que procuro. Sempre me questionei sobre a função da literatura ? E para que serve um poeta ?

Talvez ser poeta sirva apenas para colocar esta pequena horta do fim-do-mundo, num lugar de deuses e deusas, num Olimpo outra vez pastoral, perfeito como uma cantata polifónica, onde os sobreiros são tenores e os chamarizes, mega-sopranos temíveis, temperando a dimensão do silêncio com o estrilho do seu canto.

O poeta deve ter a pretensão de pegar carinhosamente nesta horta e arrancá-la sem a arrancar. Levá-la daqui para onde a horta não exista, mas seja necessária. Para quem não tenha uma horta - ou apenas a tenha virtualmente - consiga sentir o cheiro, a placidez, o optimismo, a modéstia honrada que tem uma horta em Salvaterra do Extremo (Idanha Nova - Portugal).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Beira Interior

                                                                                         Ao Joaquim Cardoso Dias

O tempo parou. As pedras descansam. E os pardais treinam  retórica sabe-se lá porquê...

As ovelhas e os poços refletem o pedido tímido da primavera e, por agora, recusado.

Mas, junto à devesa das oliveiras, avança a fibra ótica, imaginem!
Ó século XXI, onde os exércitos marcham dentro de fios, para impor a Pax Romana.

Estribilhos de melros enquadram  a canção de uma betoneira.

Agora o tempo volta avançar, em círculos, numa tontura mecânica.

Quando a betoneira pára de vez, a realidade esfarela-se. E as hercúleas formigas  constroem, com essas migalhas, um novo império interior. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Primeiro é-se e depois demonstra-se porque se é



"Porque é que foste para jornalismo ? Uma vez contaste-me, achei tanta piada. Mas o que tem mais piada é tu acreditares na causa e efeito. Porque primeiro é-se e depois demonstra-se porque se é" - escreveu Vergílio Ferreira no seu romance "Até ao fim".

Esta pérola do existencialismo cristão de Vergílio Ferreira é afinal uma frase de um grande carácter pedagógico. Um conselho válido para qualquer jovem que acabou de apanhar "o comboio da vida".

terça-feira, 27 de março de 2012

Bovary, um paradigma social



Um museu  sincroniza os seus utentes com o passado. Fá-lo através de artefatos, documentos e experiências.

A Cinemateca Portuguesa concretiza a sua aspiração de museu do cinema da melhor forma, ou seja, através das emoções, através de histórias de celulóide que nos revelam as culturas humanas. Não só as culturas atuais, como aquelas que surgiram antes do cinema. E esta é a "deixa" para falar-vos de "Madame Bovary" de Vicent Minnelli (1949) - filme a que assisti no passado Sábado nesta sala de espetáculos.

Este soberbo filme é um dos vetores de análise de um romance homónimo marcante da cultura ocidental. Ele demarca a transição do romantismo para o realismo, impondo-se assim como uma rutura epistomológica. A rutura coloca dois espaços em contato. E quando os espaços se encontram, nascem novas perguntas. E assim avançam as mentalidades de rutura em rutura, de pergunta em pergunta.

 Uma obra de arte que nos questiona, cumpre sempre bem a sua função. E a história de Emma Bovary mostra-nos o quão ténue é a linha que divide a culpado da vítima, e isso inquieta o espetador porque tem dificuldade em situar-se. Emma Bovary é uma mulher deslumbrada por um mundo de romances e revistas cor-de-rosa. Consequentemente esta mulher não consegue realizar-se no mundo real, sendo por isso vitima de um conjunto de personagens que gravitam em seu redor, e que se aproveitam da sua ingenuidade social. A conclusão realista de Gustave Flaubert, autor do romance, é  simples: A impossibilidade de viver o espaço dos sonhos na vida real, porque eles são uma representação onírica e subjetiva que não encaixa com a forte coação social que nos contextualiza.

Emma Bovary é felizmente uma mulher que viveu num mundo (Séc.XIX) onde a condição feminina estava ainda por se antecipar. Mas se que a figura  "Bovary" é  de facto História apenas, o paradigma "Bovary" está sempre latente na existência humana. E, por isso, nos fragiliza e, por isso, nos humaniza.
_