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terça-feira, 23 de março de 2010

Comércio e Religião

Escrevia esta semana no semanário Expresso, o matemático e divulgador Nuno Crato que após um estudo bem fundamentado, concluiu-se que a qualidade e a quantidade do comércio é proporcional a dois factores: Religião e Justiça.

Apesar das múltiplas técnicas de marketing, gestão, contabilização, publicidade e vendas em que gastamos tanto tempo, a Religião é o factor mais determinante nas relações comerciais.

A afinidade é afinal um valor insubstimável. Pensando melhor, não surpreende assim tanto, pois não ?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Até sempre, Rohmer !



A morte do cineasta francês Eric Rohmer, no dia 11 de Janeiro, em Paris, aos 89 anos, encerra um importante capítulo da história do cinema.

Nascido Jean-Marie Maurice Schérer em 21 de março de 1920, em Tulle (França), Rohmer foi um dos maiores nomes do cinema e figura central da nouvelle vague – “nova onda”, movimento do final dos anos 1950 criado por jovens críticos como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut (1932-84) que questionava o cinema clássico francês.

Rohmer era conhecido por seu estilo intimista, com filmes sobre desencontros amorosos que colocavam a palavra no centro da ação cinematográfica. Os diálogos do seus filmes tomavam a forma de divagações filosóficas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ilusão

Quem nunca sentiu que por detrás de tudo o que faz correr a vida está a ilusão?

Se retirarmos tudo aquilo a que chamamos Ilusão ou os mecanismos dedicados à criação da mesma, o que fica?

Animalidade, instinto de sobrevivência, o presente apenas, o bem-estar instantâneo...

O futuro é o pai da ilusão. Não conheço nada nem ninguém que tenha verdadeiras ilusões sobre o passado, a não ser que esse mesmo passado ilusório condicione as ilusões do futuro. Nesse futuro onde projectamos o sucesso, a saúde, a felicidade e, num registo quase bíblico, a esperança de encontrarmos Deus, um paraíso à nossa medida e uma espécie de reconhecimento transcendental após a nossa morte.

Quando sei que alguém mais próximo faleceu, fico ainda mais triste porque me lembro da infindável cadeia de desejos e afectos que se perderam. Esse desejo que enquanto projecção futura e demasiado diáfana toma a forma de ilusão. Todos estes desejos e afectos, por generalização ilusões, são o alimento do martírio ou sacrifício a que somos votados no duro dia-a-dia – impedidos quantas vezes de nos cumprirmos como gatos ( esses verdadeiros deuses sensíveis e contraditoriamente humanos). Quem legitima esta espécie de condenação ou veredicto auto-imposto, a não ser um estádio superior de existência, por si só, uma ilusão - não fossem os humanos (o único ser vivo que conheço bem) um fonte inesgotável de ambição e incomodo.

Outra pergunta: A ilusão é causa da vida ou da sujeição a que nos entregamos num aquário a que chamamos psique – resultado da vivência, cultura e genes que nos pré-determinam e que são fruto de um processo de evolução natural antiquíssimo ?

Como diria, Alberto Caeiro: “A metafísica é uma consequência de estarmos mal-dispostos” e só por isso escrevemos pequenos ensaios sobre generalizações como versa este tema.

Povoam a minha secretária, onde neste momento onde me encontro, um conjunto de molduras com fotos de crianças da minha família (filho e sobrinhos). Na estática dos seus olhos, existe inquietação, resignação, curiosidade, bonomia e naturalmente simpatia. Naturalmente, lembro-me do Pessoa: “Onde estarei eu em criança ?”

Se eu estivesse entre estas fotos, o que via, pensava e sentia. Que ilusões teria ? Decerto poucas e boas.

A minha ama, a D.Lurdes, era e ainda é (apesar da avançada idade) uma maravilhosa analfabeta que sem querer me ensinou o mais profundo lema de Saint-Exupéry: “É apenas com o coração que se vê. O essencial é invisível aos olhos.”.

Tal foi a marca que terá deixado este constatação imensa e intensamente repetida durante a minha tenra infância, que muitas vezes sou surpreendido por um forte e inexplicável sentimento que causa em mim uma sensação de inquietação, excitação e desconfiança para comigo próprio:

Como posso num mundo regido por cadeias de pensamentos lógicos, tentar argumentar dizendo aos meus interlocutores: “É assim, porque sinto” ?

Só consigo gerar uma argumentação válida, através de um processo de reengenharia que parte da conclusão obtida através do sentimento e pretende alcançar, como produto, os argumentos lógicos que quase sempre se escondem nesse imensurável mar do subconsciente.

Se este processo de dedução dos argumentos não é bem sucedido, ou seja, não os encontramos ou por dificuldades de comunicação não os transmitimos de forma plausível, enredamo-nos numa áurea de teimosia e de conflito generalizado com os outros e com nós próprios.

Encontrei para este imbróglio social, não diria uma solução, mas antes um escape travestido de saída de emergência: A poesia.

Poesia , uma forma de expressão onde a “mentira é verídica”, como disse o poeta espanhol Angel Crespo. Poesia lírica, onde o subconsciente, não de uma forma hipnótica, mas onírica e estética, consegue argumentar ainda que num contexto ilógico, ilógico no sentido ortodoxo da conceito. Criam, os poetas, desta forma, uma ferramenta retórica e científica se atendermos que parte de pressupostos válidos no âmbito do individuo e alcança conclusões válidas nesse mesmo contexto.

Mas se o homem é o fim último da natureza, a poesia pode bem ser uma janela indiscreta entre eles: Homem e Natureza.

À boa maneira discursiva, fecharei o ciclo deste pequeno ensaio, tentando concluir que a ilusão da razão, alicerçada na nossa emoção e intuição é a mais forte e auto-determinada das motivações. Tão forte que nos pode conduzir a algo fatidicamente ou excepcionalmente real, ainda que essa realidade não seja mais que a mais intima ilusão.

Talvez saltemos apenas de ilusão em ilusão com o fito de concluirmos, cito Pessoa, que “A única conclusão é a morte”. Até que a morte nos separe, a ilusão é um direito mas sobretudo um dever.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sol Invictus



Os dias duravam cada vez menos. Jau sabia-o. reparou que a sombra da ponta da estaca estava cada vez mais prolongada.O sol estava cada vez mais baixo. Todos os dias, Jau esperava pelo ponto máximo e riscava, no chão, o limite da sombra (ao meio-dia).Quando terminaria aquela descida progressiva ? Jau não informara ainda a sua tribo, mas desconfiava que o sol estava doente. Mais dia, menos dia, o sol deixaria de aparecer como habitual por detrás dos montes. Até que certo dia, Jau teve uma agradável surpresa. A sombra estava agora menor. Ao meio-dia, o sol estava mais alto que no dia anterior. O sol afinal não queria morrer. Apenas adormecia durante um período para  se reerguer depois. Jau contou, aliviado, a boa nova à sua tribo. E a partir desse dia, todos os anos, se celebraria o renascimento do sol (depois do solstício de Inverno).

sábado, 28 de novembro de 2009

Pátio dos Deuses -Parte III

Ano 72 da Nova Era ( antigo ano de 2090 DC ).

Em 1998 DC, o meu avô brincou neste pátio. Aliás, o único vestígio que ficou depois de terem arrasado os prédios antigos e plantado este bosque. Naquele tempo, as mentes morriam com os corpos e as pessoas trabalhavam 7 horas ou mais por dia. O capitalismo estava, como ainda hoje, no auge. Porém, as pessoas estavam mais interessadas em ter coisas materiais do que tempo, árvores, amigos ou boas conversas. Eram outros tempos.

Felizmente, os deuses daquele velho pátio morreram. Nem os Deuses são eternos. No ocidente, de vez em quando, mandamo-los dar uma “curva ao bilhar grande”, quando já não servem para nada. Sobre a sua memória, fazemos aquilo que em gestão chamamos Inovação Incremental. Isto é, não rompemos completamente com o modelo anterior, apenas acrescentamos uma camada – que neste caso são tão-só novos deuses.

Dizem que tudo começou naquele dia em que o meu avô pediu ao seu pai, para escrever um post no Blog, inserido numa manta de retalhos narrativos que chamavam “Pátio dos Deuses”. Um Blog era uma espécie de diário electrónico que existia numa rede de dados de dimensão mundial, chamada World Wide Web.

O meu bisavô ficou confuso. Porque razão tinha o filho pedido-lhe para escrever aquele post ? Inventou uma pequena história de ficção científica para despachar o assunto entre tantos outros assuntos que tinha na sua agenda.

Mal sabia ele, que todas as profecias daquela short-story se tornariam mais tarde realidades.
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