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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dois docs, duas mulheres, duas formas de rebeldia

Acabei de ver dois docs comoventes. Um baseado na biografia da pintora Paula Rego. O outro, na cantora norte-americana Janis Joplin. Ambas marcadas pela sua condição de mulheres muito especiais. Têm histórias de vida absolutamente pungentes.  A americana brilha e explode, com a velocidade previsível de uma estrela pop nos States dos anos 60. A portuguesa tem uma atitude introvertida e transforma as suas ansiedades, forças e subjetividades num longo percurso pictórico. Não vive tão intensamente como Janis Joplin e frequenta meios mais serenos. Por isso resiste, insiste e vence. Aliás, ambas artistas vencem o tempo, porque ficaram na história do século XX.

O documentário "Paula Rego, Histórias e Segredos" é uma oração ao ser humana. Chamo-lhe oração murmurada, porque a linguagem da pintora é uma espécie de murmuração do seu subconsciente - uma confissão criptada. "Janis: Little Girl Blue" é um grito, daqueles gritos nascidos no pós-guerra, mas não só. Um grito  para onde convergem muitos silêncios contidos, o silêncio dos negros (Jazz, Blues) ou o silêncio dos humilhados, renegados e falhados. E talvez seja este o drama interior de Janis na década do amor (anos 60): Querer amar todos e ser amada por todos. Uma missão que se revelaria impossível para uma  rapariga gorda e com acne de Port Arthur (Texas) para quem o palco se tornou a melhor forma de ser finalmente amada. Morre de overdose em 1970, como se Janis pudesse desaparecer.




  

terça-feira, 4 de julho de 2017

O teu pé

para a Fatinha

O teu pé
limo sobre a lava
abre em combustão a rocha 
quase adulta
e salgada

Ao largo, 
o vulcão estremece,
mas não acorda
quando o cardume a medo o contorna

Veludo azul e verde
o teu pé tecido de paciência
como uma suave desforra

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O caminho

"Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição" Mateus, 7:13


O caminho é estreito e a floresta densa
É natural que a palavra se perca
enredada em raízes ou ecoando sem tino
contra os troncos das árvores

O caminho é estreito
e, milimétricos, os passos que seguem
pela longa viga suspensa sob confusão mental

O caminho é estreito
tão estreito que só tu cabes nele
Mas se o percorreres
convergirás em mistério
para a praça maior dos outros

O caminho é estreito,
assim como os passos são apenas teus

Avança



sexta-feira, 16 de junho de 2017

Uma trindade simples

Como alguém que rasura na casca de uma árvore, não posso deixar de um "Luís Loves Frank Capra" no tronco do Àrvore com Voz.

Os TVcines decidiram passar três filmes (mês de junho) do italo-americano Frank Capra. Todos eles foram nomeados e galardoados com óscares da Academia. Parecem westerns urbanos, com os heróis e os vilões bem definidos, uma história de amor a acompanhar e os heróis sempre a vencer o mal de forma épica, deixando um lastro de moral bíblica ao longo de toda a película.

Que a terra te seja leve, Frank, porque realizaste três obras que me divertiram e inspiraram-me a tentar ser um ser humano melhor.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Deeds_Goes_to_Town

https://pt.wikipedia.org/wiki/You_Can%27t_Take_It_with_You

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Smith_Goes_to_Washington
Mr.Deeds goes to Town (1936)
You cant´t take it with you (1938)

Mr.Smith goes to Washington (1938)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ensina-me

Ó meu Jesus Cristo
Ensina-me a caminhar sobre as águas
A não temer o impossível
Ensina-me a amar a morte, a enfermidade e o inímigo

Deixa-me dar-te a mão, Jesus,
e caminhar ao teu lado como um apostolozinho cego e mudo
E com a outra mão, deixa-me ajudar o meu irmão
a carregar a sua cruz, como fez o cirineu

Se Tu pudesses falar por mim,
apenas com a expressão dos meus olhos,
um silêncio reparador alastraria à minha volta
E nas trevas carnudas da minha cegueira
nasceria a primeira manhã 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Da humildade

Ó poeta não te perguntas porque é que depois de escreveres uma dúzia de versos te surge na alma aquela impressão insolente de que fizeste uma grande obra ?

Tens mesmo a mania das grandezas ou terás, em vão, tentado falar com Deus ?

Terás conseguido falar com Ele ? Se Ele te tivesse escutado, não ficarias com esse sabor de superioridade e glória que te aflora aos lábios, julgo eu, neste meu juízo limitado pelo tempo,  espaço e  corpo.

Temo mesmo que não haja criação humana, mas apenas uma interpretação insuficiente ou uma arrumação temporária da obra de Deus.

Se calhar o universo inteiro não passa de um átomo de uma molécula de um pelo que cresceu na axila Dele esta madrugada.

Porque é Deus, ó poeta, que tudo escuta e cuida. É da sua natureza este cuidado tão intenso como extenso. Ele, sim, é o poeta que escreve, conhece e risca - piedosamente, creio eu -  todos versos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Finisterra, porque sim

Eu sei, tu sabes
que sou um projeto estúpido da terra
desses que se soltam das margens
como um telemóvel sem a tecla de atender
e calcorreando vou de rio em rio
até ao incógnito mar
no máximo dos máximos
passo a três léguas daqueles cabos velhos
que dobram os continentes sem saber porquê

Eu sei, tu sabes
que hoje não há tempo para poemas
mas tão-só para mapas astrais
e sistemas de equações
de índole tão indeterminada como uma fakenews

"Rocky reef on sea shore" de Caspar David Friedrich 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Entre o céu e a terra

Pintura tonalista de Edward Bannister


As religiões são gramáticas com deficiências naturais e humanas. Elas permitem aos humanos nomear ou interpretar o transcendente. É natural que as religiões à semelhança das línguas dos povos tenham uma matriz geográfica, étnica e política. Entre o transcendente e o imanente o que pode um mortal senão seguir o caminho estreito entre ambos. Eles próprios que alternadamente se atraem e repelem.

"Terra
sem uma gota
de céu.

(...)


Céu
sem gota
de terra."

in "Turismo" de Carlos de Oliveira

Há ateus de uma religiosidade tão exigente que nenhuma gramática lhes parece suficiente para a fruíção ou interpretação do transcendente. Ninguém escapa a este anseio de infinito, de partilha caritativa,  de misericórdia e justiça, de uma verdade tão universal e genérica que possa servir de referência a todos nós - ou mais poeticamente - um ponto de fuga comum para onde todos as caminhadas converjam. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A falência das palavras

Nunca encontrei palavras, nunca
Tocá-las? Queria eu, queria
Às vezes algumas das suas sombras recônditas
surgem-me  espectrais em ínfimos poemas
Em outras alturas, ouço-as ao longe
aos turbilhões  em solilóquios impetuosos
e mais tarde exaustos
Quando tento agarrá-las, já lá não estão
Acredito que as palavras foram reais
há  muito tempo atrás
Justificavam duelos e amparavam amores
E alguns deles, até só viviam nas e das palavras
Agora todos os poetas que conheço
abriram falência por causa delas
e em segredo mudaram de ramo
ainda que finjam que não

Que pena já não haver ligação nenhuma
entre as palavras e as coisas
Nem que fosse uma pequena economia
destinada apenas às mais belas



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Testemunho de um peregrino por alturas do Pesah


Era ainda criança, quando vi o nazareno, na estrada da Galileia, repetido no pó magro que mesmo desfocando anuncia. Caminhava entre uma turba de sangue borbulhante - mais tarde derramada sob as patas incoerentes dos leões.

"Não há pai sem filho." - pensei - "Não há filho que não amemos".

Eu juro que vi o nazareno no espelho fosco daquele pó tão leve que chegava ao céu, naquela carne interina que lentamente se transubstancia em palavras e verdade.

Na verdade vos digo, eu vi o nazareno e lembro-me disso muito bem. É como se o visse todos os dias, passando e  olhando-me, naquela estrada que vem de coisa nenhuma para o templo de Jerusalém.


Algures perto Jerusálem, 3 de abril de 33 D.C.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Homem Só

Quando olhamos para um fenómeno pela perspectiva sociológica, usando as ferramentas analíticas para estudar o caso, obtemos política, legislação e eventualmente transformação. Quando olhamos para um fenómeno e vinculamos a nossa atenção num indivíduo apenas, temos  literatura, emoções e drama. É de facto esta última perspectiva que mais me interessa: a ovelha perdida, a moeda reencontrada ou o regresso (ou não) do filho pródigo.

Se contarmos a história do indivíduo, em detrimento, da do grupo ou da classe a que ele pertence, talvez ele se sinta protegido, porque agora está visível e tentou-se compreendê-lo. Talvez narrar o seu drama seja o pequeno contributo para que o "Homem Só" perca aquilo que o filósofo José Gil chama de "medo de existir" no seu livro "Portugal, Hoje - O Medo de Existir"


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Crianças e animais - duas metáforas sobre a existência

Dois livros que falam de quando as coisas eram tão más e injustas que ao adaptarem-se a elas, as personagens cresceram e libertaram-se daquela forma  como só acontece nas histórias imaginadas. O primeiro livro chama-se "Capitães da areia" e foi escrito em 1937 pelo brasileiro Jorge Amado. Aqui um grupo de crianças sem família, nem lar fazem o que podem e não devem (ou será que devem?) para viver sem estas coisas. Na verdade, ninguém sabe viver sem elas, e por isso, aqueles rapazes reinventam um lar, uma mãe, um pai, um deus, uma causa comum para lutar.

O outro livro chama-se "O apelo da selva" foi escrito por Jack London, em 1903. Na consciência  de Buck, um cão arraçado de São Bernardo e Pastor escocês, London conta a aventura do cão de um juiz que vivendo num ambiente entediante e civilizado -  aparentemente justo e protegido - tem uma existência banal e digna. Mas mesmos os sítios bem frequentados têm as suas ratoeiras. Um ajudante do jardineiro do  seu dono tem o vício do jogo. Pior do que isso, vive na ilusão que descobriu um sistema que lhe permitirá enriquecer. A vida financeira do jardineiro não lhe corre bem, obviamente. E Buck é raptado e vendido pelo jardineiro a uma rede que angaria cães para puxar trenós. Descobriu-se muito ouro no Canadá, junto ao Árctico, onde começara uma corrida ao bem mais cobiçado do mundo. A neve e os trilhos gelados só podem ser percorridos por trenós puxados por cães de envergadura. A animalidade dos homens estimulada pela necessidade e ganância - uma fronteira estreita as separa - surpreende então Buck de uma forma assustadora e brutal. Os primeiro tenpos são de angústia. Buck sofre uma crise existencial derivada desta mudança. A bestialidade a que ele é sujeito, abala-o mas não destrói. Ninguém está suficientemente preparado para a selvajaria humana, nem mesmo um cão.

Buck leva então a  consciência até ao âmago da sua natureza, da sua ascendência de lobo. E quando a criação do Homem se junta à da natureza, nasce um herói, esse mito inspirador e platónico que não existe. Ainda assim Jack London cria-o de uma forma inflamada e sofrida como um parto difícil, inspirando-nos com a generosidade temerária deste Cão-Lobo / Homem-Animal,

Por debaixo da camada sociável e mansa do Homem, existe sempre esta pulsão primária que nos impele à violência como forma de resistir ao medo. A guerra é um exemplo acabado deste processo. Por isso, "O apelo da selva" é daquela literatura de sempre para sempre, um verdadeiro clássico que nos deixa este aviso: Não humilhem um manso e muito menos uma classe mesmo que esta seja tida como tal.



"O Apelo da Selva" de Jack London

 Tradução: Emília Maria Bagão e Silva
 Editor: Livraria Civilização Editora
 10,40 euros (Wook)



"Capitães da Areia" de Jorge Amado
Editora Bis
7,5 euros (Wook)














quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os prazeres e os dias

"Sombria dor dos céus de cinzento vestidos;
Tristes também, se azuis, nas tão raras abertas
Que deixarão então, nas planícies cobertas,
Filtrar os mornos prantos de um sol incompreendido"
De:Marcel Proust em "Os prazeres e os dias" (Trad. Luíza Neto Jorge) 

Alverca do Ribatejo - Foto minha tirada em março de 2017








quarta-feira, 5 de abril de 2017

Perdi o telemóvel e achei uma bem-aventurada

Perdi o telemóvel. Quem o encontrou, não o desligou. Telefonou-me (um colega da achadora) para o telefone fixo, dizendo que queria entregá-lo ao dono. Fui buscá-lo. A pessoa que o encontrara tratava-se de uma africana, analfabeta e empregada da limpeza. Ao devolver-mo, disse-me:"Só lhe peço que faça o mesmo, se encontrar o  telemóvel perdido de alguém". Lembrei-me das palavras de Jesus, relatadas por Lucas, no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os pobres, porque será deles o Reino dos Céus",

Auto-Retrato (1992)


terça-feira, 21 de março de 2017

Ondjaki na Amadora

Ondjaki tem 40 anos, e já é um grande escritor angolano. A sua vasta bibliografia e a lista de prémios que lhe foram atribuídos não deixam qualquer dúvida. O melhor é mesmo lê-lo. Mas se quiserem, ouvi-lo e falar com ele, na próxima quarta.feira (22 de março), pelas 18:00H na Biblioteca Central da Amadora. Ele e a Editorial Caminho vêm até à cidade da Amadora lançar o seu novo livro "O Convidador de Pirilampos". Mesmo que chegue atrasado, esperamos por si.

Uma organização Clube Literário da Amadora, Amadora - Passado, Presente e Futuro e Biblioteca Piteira Santos - Amadora


segunda-feira, 20 de março de 2017

Tenham esperança!

Aos meus amigos mais jovens que andam tristes com a eventual falta de emprego compatível com as suas expetativas, aos pais daqueles que viram os filhos emigrar, só tenho duas palavras para dizer-lhes: "Tenham esperança". Antes da crise, Portugal tinha 35 empresas entre as 100 maiores da Península Ibérica. Agora tem apenas seis. A culpa não é nossa, nem deles. São circunstâncias da história. Tenham esperança, porque é no crisol fogo que se purifica o ouro. Os povos que acreditaram nos momentos difíceis, ergueram-se das cinzas. Também nos vamos erguer. Com paciência e esperança.

quarta-feira, 15 de março de 2017

o dom

A palavra é um dom. O outro é um dom também. Logo a tua palavra é um dom e a do outro também. Usa-a com cuidado e generosidade. Escuta-a com atenção e atento aos sinais. A palavra é uma representação espiritual, uma centelha, uma faísca capaz de incendiar ou extinguir um fogo.É uma forma de conversarmos com os outros e connosco, de descobrirmos, ou pelo menos, de procurarmos. Viva a palavra. Viva o outro só porque é o outro, ou seja, porque nos complementa e expande. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Dramatizar, segundo Bloom

Enquanto lia uma apresentação sobre a avaliação no ensino, deparei-me com o verbo "Dramatizar". A função de dramatizar encontrava-se entre  outras derivadas do verbo "Aplicar".

Aquém de "Dramatizar" estavam o "Conhecer" e o "Compreender". Para além, ficavam os verbos "Analisar", "Sintetizar" e "Avaliar".

Quem escreve para  teatro deve ter esta escala verbal em conta: Para "Dramatizar" deve aplicar o que se conhece e compreende e deixar as tarefas de analisar, sintetizar e avaliar para quem  aborda o guião, esteja esse elemento envolvido na criação do espetáculo ou apenas na sua contemplação.




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Uma palavra medonha, "Sofrimento"

Dizem-me que Deus é amor. Mas só poderemos conhecê-lo, ao amor Dele, profundamente, se nos for dada a graça de sofrer.

Olho  Jesus Cristo suspenso na cruz, em terrível agonia, e compreendo objetivamente a dimensão e a natureza do seu amor por nós. Foi também através do meu sofrimento, tão comezinho e patético diante do dele, que percebi de forma mais consistente esse conceito do amor num sentido mais lato, mais universal. Esse amor que através do sofrimento - e podemos utilizar no contexto cristão a palavra "paixão" - se transforma em compaixão, em caridade e quiçá, talvez certo dia, em liberdade e alegria.

Dou-te agora um conselho: Fecha os olhos, os ouvidos e a boca. Conta a três e lança-te no buraco escuro do sofrimento. Tem esperança então, irmão/irmã, que Ele Te acolha nas Suas mãos. Ouvi dizer, e nesse momento fiquei atónito, que se creres na tua salvação através Dele, "nada te faltará!".  "Nada me faltará?", soletrei de mim para mim naquele momento.

"Nada!", tenho esperança que  Alguém assim certo dia me responda.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Bem-aventurados os gentis

Era um dia qualquer e uma hora qualquer perto do almoço. Estava triste e angustiado. Ansioso. Tinha feito toda a manhã o que não se deve fazer: pedir uma ação de graças em meu favor. Lembrei-me que estava perto da   igreja do Campo Grande, onde ali mesmo,  junto ao rebuliço do cruzamento com a avenida do Brasil, eu muitas vezes me recolhia sozinho para rezar. Acerquei-me do templo. Antes de abrir a porta, ouvi uma voz feminina fazendo uma leitura. Admirei-me. Empurrei a porta da esquerda da igreja que não cedeu. Forcei a da direita e ela abriu-se. Decorria uma missa.

Nas últimas cadeiras estava uma mão cheia de jovens adultos, na casa dos trintas, vestindo  trajes normais, daqueles que se usam em Lisboa nos dias de trabalho. Benzi-me e coloquei-me  no meio deles. As suas vozes rezando, ecoavam dentro de mim uma comoção estranha, causada em parte pela esperança  daquela frescura espontânea - algo arredada das igrejas que frequento - e por outro lado, pelo facto da sua presença poder dever-se, como a minha, a uma angústia premente qualquer.

A missa foi avançando e as vozes em redor enchiam-me o coração. Estava agora cada vez mais comovido. Cheguei mesmo a pensar em colocar os óculos de sol para esconder as lágrimas. Olhava o Senhor agonizante na cruz e pensava: "Sofreste para que nós fossemos homens e mulheres alegres. Desculpa-me esta tristeza de quem tem ainda tão pouca fé".

Na hora da saída, gentilmente um daqueles jovens adultos abriu-me a porta. Lembrei-me que lera no dia anterior, na nova tradução bíblica que  Frederico Lourenço fez a partir do grego: "Bem-aventurados os gentis, porque herdarão a terra"** Pensei para mim: "Obrigado, irmão. Que o teu gesto se espalhe pela cidade ".


** Nas anteriores traduções a partir do Latim, no "Sermão da Montanha", onde Jesus Cristo prega as bem aventuranças, lê-se habitualmente "Felizes os mansos, porque  herdarão a terra" Mateus 5:5. E curiosamente na nova tradução o adjetivo "mansos" é substituído por "gentis", indo ao encontro do significado original já que os evangelhos foram escritos em grego. 


Igreja do Campo Grande

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Aceitar, não é resignar

Cuidar dos feridos, não é apascentar a guerra. Amar os pobres, não é gostar da pobreza. Acolher os transviados, não é ser conivente com o vício. Homenagear os mortos, não é glorificar a morte. Em conclusão: Aceitar, não é resignar. Aceitar é o que nos resta quando não há nada a fazer, quando resistir significa partir, quebrar, ou menos, desgastar-nos sem porquê. Aceitemos, portanto, sem nos resignarmos.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O lado possível da transformação

Vivemos irritados com alguns traços da nossa personalidade. Não queríamos ser vaidosos, tímidos, gananciosos e muitos outros traços da nossa natureza que gostaríamos de anular ou lentamente enfraquecê-los. Muitos tentam esta mudança durante semanas ou meses, mas passando algum tempo, todo o esforço foi em vão e as características voltam manifestar-se como sempre. Na verdade, não podemos anular o que a nossa componente genética e a nossa matriz cultural nos atribuiu. O que podemos é aceitá-la. E ao perdoar as nossas próprias fraquezas, ficaremos mais apaziguados espiritualmente. Esta transformação de aceitação será  pedagógica, porque nos ajudará também aceitar o comportamento do outro. Compreender e aceitar aquele traço da sua personalidade que nos irrita - ou que pode mesmo a fazer com que o odiemos - vai fazer maravilhas, se não na relação com o outro,  pelo menos no nosso próprio conforto espiritual.  Conclusão: Aceita-te e vais aprender a aceitar o outro. Esta é a transformação possível da nossa personalidade, a aceitação.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Sociedade do Cansaço"

Cada vez mais encontro mais pessoas cansadas ou esgotadas no meu dia a dia. Muitas delas, são mulheres que trabalham em média mais do que homens. Se queres perceber o que nos está acontecer a (quase) a todos, recomendo a leitura da "Sociedade do Cansaço" (2014) do filósofo Byung-Chul Han. Quem quiser aprofundar ainda mais este tema pode ler ainda a sua obra mais esclarecedora "Psicopolítica".





    Autor: Byung-Chul Han
    Edição: Relógio d'Água
    64 páginas
    Custo: 12 euros

A tela de Penélope

Enquanto esperava o regresso do seu marido, Ulisses, a Ítaca, a bela Penélope foi assediada por muitos pretendentes que, argumentando que o seu marido havia morrido, esperavam desposá-la. Esta para conseguir fugir ao assédio, começou a tecer um tecido para a urna funerária do seu pai, dizendo aos pretendentes que apenas tomaria uma decisão no final daquela tarefa. No final de cada dia, Penelópe desmanchava a todo o trabalho do dia e recomeçava de novo na manhã seguinte. Assim o fez até à chegada de Ulisses à ilha de Ítaca.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Ilusão cósmica

Os espelhos trazem-nos
 a ilusão da alvorada.

Os espelhos que estão agora
por todo o lado
apenas refletem a labareda
que diante deles alguém acendeu.

Sim, podes tocar o espelho
sem que os teus dedos ardam.

Ó como é fluorescente e quente
a ilusão das chamas
quando ela te projete do frio.

E reduzido a cinzas
há-de o vento levar-te
para outro lugar irrefletível.

Serás outra vez a poeira
que entra pela porta
das casas baixas sem darmos conta.

Serás outra vez o primeiro naco de pó
à espera de crescer
crescer até à altura do espelho.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ofício exato

"Persistir em dar forma ao que permanece escondido na escuridão (e que jamais viste) poderá ser considerado teimosia inconsequente, mas, também, o mais puro dos actos do escultor" 

em "Breves notas sobre o medo", 
Relógio d'água (2007) de Gonçalo M.Tavares


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