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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O meu avô

Que deus era o teu, Avô ? O da terra vermelha transmutada em tons de verde e castanho nas veias vitreas dos sobreiros? Como era simples o teu deus: sem palavras,  nem orações.  Ninguém te ensinou deus e tu aprendeste-o, nos corpos dos homens que saiam das searas para a taberna e no passo miúdo das raparigas ao domingo a caminho da cataquese. Tu conhecias deus sem o saberes, eis o mistério.  Sentias-o na pele, na cama, ao fim do dia quando cansado voltavas silencioso para casa.  Cada cumprimento teu era uma pedra escrita com os mandamentos.  E quanto aos sacramentos, limitavas a copiar o que vias. Afinal foi assim que aprendeste a semear o grão e o feijão.

Mais tarde, ninguém te entendeu, quando te reformaste e decidiste viver numa indigência de monge. O Nuno Álvares Pereira fez o mesmo.  Mas esse como era rico e poderoso, todos concordaram que ele só podia ser santo. Tu não podias. Eras só um forreta. Ninguém entendeu que querias viver naquela paz que só existe na pobreza,  onde não há lugar para a propriedade,  nem para o terrível medo em perdê-la.

Avô,  foste santo e não o sabias.  Ninguém to disse. E nenhum santo verdadeiro se acha à altura do seu título.

Eras simplesmente o avô e a prova cabal dessa natureza é que já esqueci o teu nome.

1 comentário :

Paris Toujours disse...

gostei muito.
que sábio era o teu avõ. acredito na sua verdade.

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