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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

processo 32.10892
























há sempre um incêndio
que deflagra no coração da casa

a cozinha em chamas
não é mais que uma nova metáfora
sobre o amor a caminhar por moitas secas

onde por fim restam cinzas para alguém lamber

e as lágrimas ?
essas secaram todas
na excitação de levar entre mãos
a água ao fogo

agora ao longe
tudo parece um murmúrio
ligeiramente incandescente
e uma apólice de seguro em vigor

só mesmo na tua cabeça, ó  poeta,
a cozinha em chamas te faz lembrar
o nosso amor

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A propósito do medo e da cobiça de Thomas Hobbes

Todo o Homem nasce frágil. Tem por isso medo de tudo e tudo cobiça, porque tem  necessidade extrema de se defender. Esta tensão gera um conflito de todos contra todos. Poderão as grandes massas populares, a sociedade cívil e as suas instituições proteger um ser humano de outro ser humano ? Penso que sim. Existem, neste momento (a meu ver trata-se de uma antitese histórica da forma como Hegel conceptualiza na sua dialética ), para isso dois pilares : estado e religião. Só estes dois conceitos conseguem reunir uma perspetiva holística e segura. Desta primeira premissa chega-se à necessidade de um contrato social, mas também espiritual. O materialismo marxista afirma que só depois de teres a pedra (matéria) na mão é que decides o que fazer dela (decisão moral ou ética). Já temos a pedra na mão e agora? Vamos atirá-la à cabeça do nosso irmão ou construir uma casa para vivermos literalmente juntos ?


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

África Delas

Vi esta foto no Facebook e gostei muito dela. Trata-se de um conjunto de estudantes de medicina que foram estagiar até São Tomé e Príncipe. Ao fundo, o Ilhéu das Rolas.

Achei a foto descritiva, equilibrada e enigmática. Gosto de ver os portugueses fotografados em África. Ficam mais humanos e naturais. Perdem aquela película sofisticada que lhes mascara a atitude. Libertam-se daquela peça teatral, velha e demasiado encenada chamada Europa.



Foto de Emanuel Cortesão de Seiça

O abrigo

Em memória de António Queiroz Lopes

Onde havia eu de abrigar-me
das chuvas frias, das noites húmidas
que atormentam meu estro tão cansado como o vosso ?

Onde esconder, ó defuntos,  os vossos ossos
que se encaixam já nos os meus ?

Creio que seguindo o vosso rastro, Senhor,
chegarei ao abrigo, ao lastro da  humanidade toda
- esse lugar onde um ar rarefeito se eleva às grutas.
 desce às nuvens,
e percorre livre as pradarias das covas escuras.

Ai deixará de haver passado ou  futuro,
apenas um rio desaguando nos confins do início
e uma paixão escondida entre duas eternidades.



Como explicar a um jovem porque é bom ler romances ?

Ao explicar a um jovem de 13 anos porque deveria ler romances, disse-lhe:

"Caro amigo,
Ainda acerca dos livros, tenho de dizer-te mais uma coisa: O fantástico é aliciante e livros como o "Senhor dos Anéis" e o "Harry Potter" ajudam-nos a desenvolver a imaginação. Contudo, livros como "O velho que lia romances de amor" do Luís Sepúlveda ajudam-nos a compreender a realidade exterior e interior do Homem. Por isso mesmo, histórias como estas são  muito bonitas e reveladoras. Muitas vezes apenas conhecemos a curta realidade que está à nossa volta e não chegamos a compreender a realidade dos outros. Por isso, é bom ler romances. Não é preciso ler muito. Apenas o suficiente para ganharmos sensibilidade para os problemas dos outros. Então boas férias e não te esqueças de ler."


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Do caridade

Do amor ao outro até amor próprio existe uma grande distância. É hábito confundirmos o amor narcisista com o amar o outro. No amor narcisista, amamos o outro porque ele nos ama, ou julgamos que ama. Este sentimento gera ciúmes, insegurança e não raras vezes conflito. Na verdade, refletimos o nosso amor próprio no outro e deixamo-nos banhar nos pequenos raios por ele ou ela refletidos.

O amor ao outro é uma admiração às qualidades culturais ou naturais da outra pessoa, uma admiração incondicional. É esquecermo-nos de nós mesmos e centrarmo-nos nos outros. É fazermos como o sol e a lua, onde o primeiro(o sol), aquele/a que ama,  ilumina a segunda(a lua), o amado/a, para que ela ou ele brilhe, mesmo que não tenha luz própria. 

sábado, 5 de novembro de 2016

A culpa do ócio



Depois de um imposto lançado pelo Papa Júlio II, em 1510, para a construção da Basílica d,e São Pedro, alguns príncipes alemães revoltam-se. Encontram em Martinho Lutero, um argumento ideológico e iniciam um movimento de separação da Igreja Papal.

Mais a Norte, Suiça, Holanda e em parte da Inglaterra, outro movimento ganha corpo. Liderado, a partir de Genebra, por João Calvino, este movimento religioso defende a ideia da predestinação, onde a salvação está destinada à nascença e toda a riqueza é vista como um sinal da predestinação divina. Está lançada a ideologia, que permitirá a coexistência da riqueza e da salvação  divina. Ao contrário disto, os católicos advogam que a salvação atinge-se através dos atos praticados em vida. Mas as lutas políticas escoradas pela religião, continuam na Europa. Entre vários palcos, a Inglaterra  é onde esta luta ganha mais relevância e interesse histórico. A rainha Isabel I, envolvida numa guerra contra os católicos espanhóis, sai vitoriosa. Manda decapitar, Maria Stuart, princesa escocesa católica e pretendente ao trono inglês. Depois de o falecimento de Isabel I, sucede-lhe o filho de Maria Stuart, entretanto convertido ao Anglicanismo, Jaime I. Mais tarde, a coroa chega a Carlos I, filho de Jaime I, e que defende a aproximação do culto anglicano ao católico.

Os calvinistas, agora apelidados de puritanos, são perseguidos e partem em grande quantidade, 250.000 pessoas, para o novo mundo. A génese filosófica dos Estados Unidos está criada.

 A condenação do ócio e a sacralização do trabalho, a par de a perspetiva de que a riqueza e a pobreza são, respetivamente,  uma graça ou uma condenação de Deus, ainda hoje marcam a sociedade ocidental.  A par de outros sentimentos de culpa que fomos adquirindo ao longo dos tempos, oriundos de uma consciência religiosa alimentada desde tempos remotos, o sentimento de culpa relativa ao ócio é uma das últimas aquisições da consciência ocidental cristã.

Schwanitz, Dietrich - "Cultura da Idade Moderna à Idade Contemporânea" - Coleção Expresso

Wikipédia Inglesa - Artigo sobre "Carlos I de Inglaterra", "Puritanos" e "Peregrinos".

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os hoplitas

Na Grécia Antiga (Período Clássico), os cidadãos para além da sua atividade económica, habitualmente ligada à agricultura ou comércio, cumpriam funções militares. Da sua própria bolsa, compravam as proteções ( Couraça, elmo e escudo) e as armas (Lança e espada). Estes soldados de infantaria chamados Hoplitas (nome dado ao escudo) formavam falanges. Estas eram formadas por fileiras de soldados que lutavam muito juntos entre si. Esta estratégia tornava-os pouco vulneráveis e promovia a  colaboração entre eles. A cooperação sobrepunha-se assim e de forma determinante ao individualismo. Os combates  eram muito formais e logo que uma das forças se rendia, os vencedores permitiam que estes recolhessem os feridos e os mortos em combate. Não agrediam populações civis.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Procuro abrigo

Procuro abrigo
debaixo de uma  ponte
que ligue o tronco ao ramo,
a borda à flor
ou essas zonas fugazes
apenas consentidas aos equinócios
e demais répteis levemente aquecidos.

Faltam-me dois dedos de fé para encontrá-lo,
eu sei.

(Falta sempre, não é?)

Talvez por isso
as nossas mãos fiquem hirtas
entre o prego e a cruz
enquanto o amor balança,
balança e sugere
mais dia, menos dia,
a martelada final.







sábado, 8 de outubro de 2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Alexandre Andrade na Amadora

O escritor Alexandre Andrade vai estar à conversa com todos aqueles que na próxima Sexta-feira,  dia 7 de Outubro,  se deslocarem au auditório da Biblioteca Piteira Santos na Amadora, pelas 21:00. Uma iniciativa do Clube Literário da Amadora. e da Bilblioteca Central da Amadora.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Ataque e contra-atsque

«As palavras ferem
o amor
como tudo o mais»

José Tolentino Mendonça

Nota: Ferem-no e ainda bem
senão ele não grita.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A primavera sulista

Sabiam que a primavera começa hoje no Hemisfério Sul ?

 Lembrou-me hoje, este facto,  um  blog-irmão.

Nada melhor do que saúda-la com um  verso do poeta brasileiro, Manoel de Barros:

As árvores me começam.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"O Passado Já Não Se Encontra Atribuído" de Vanda Palma

Cheguei a Castro Verde e logo soube do trabalho da ceramista Vanda Palma. Pensei tratar-se de mais uma ceramista de inspiração tradicional ou folclórica de índole conservadora- dado o espaço cultural onde ela se integra. Na verdade, somos preconceituosos por natureza. É a nossa forma de sobreviver, julgar e tomar decisões em tempo útil. Não devemos envergonharmo-nos de sermos assim. É humano.

Todo este intróito, para tentar explicar uma das facetas da arte: A surpresa. Sempre que alguém surpreende, renovando ou acrescentando à estética uma nova perspetiva, a arte agradece. Agradecemos todos, porque, "a tradição só sobrevive porque muda"(1). 

A ceramista Vanda Palma surpreendeu-me com estilo e arrojo. O titulo da sua exposição ""O Passado Já Não Se Encontra Atribuído""  a decorrer na CM Serpa até dia 8 de outubro de 2016 é uma espécie de síntese, em jeito de pregão, desta renovação. Jorge Luis Borges, ficionista e poeta argentino, escreveu "Nós somos os mortos", ainda, acrescento eu, que agora eles estejam com uma nova roupagem e novos objetivos de vida. 

O trabalho de Vanda Palma é essa ruptura para a continuidade. O seu trabalho é essa destruição que salva o "mundo", sendo neste caso o mundo da tradição ceramista do sul de Portugal. Lembrei-me da Rosa Ramalho (ceramista minhota), mas agora dando à cerâmica de cariz popular uma nova consciência nacional.


Ligação: Exposição em Serpa




(1)  "Um mapa para pensar a tradição",  Alfredo Teixeira, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2015, pp. 44-47 
Publicado em 18.09.2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Teatro-Filosofia-Homem/Mulher

Escreveu Jean Paul Sartre em 1974 e resolvi-o plantar  no blogue, porque  se trata-para mim de uma declaração de princípios, um ideia fundamental que não me quero esquecer nunca:

"Hoje em dia, penso que a filosofia é dramática pela própria natureza. Foi-se a época de contemplação da imobilidade das substâncias que são o que são, ou da revelação das leis subjacentes a uma sucessão de fenómenos. A filosofia preocupa-se com o homem – que é ao mesmo tempo um agente e um ator, que cria e representa seu drama enquanto vive as contradições de sua situação, até que se fragmente sua individualidade, ou seus conflitos se resolvam. Uma peça de teatro (seja ela épica, como as de Brecht, ou dramática) é, atualmente, o veículo mais apropriado para mostrar o homem em ação – isto é, o homem ponto final. É com esse homem que a filosofia deve, de sua perspectiva própria, preocupar-se. Eis por que o teatro é filosófico e a filosofia, dramática."


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um dia na aldeia

Obrigo-me a escrever o meu dia na aldeia. E se o escrevo com melancolia, em vez de astuta leveza, é apenas por tique urbano e nada mais.

Começo o pequeno-almoço com o toque a finados, como paisagem sonora. Ao qual se juntam, o chilrear das andorinhas e as vozes na rua. Estas últimas, despertam-me a tentação de ser humano. Ainda assim resisto, enquanto barro a manteiga no pão.

Avança um carro pela rua abaixo. Rezo alguns estribilhos para que não seja dos funerários. Afinal não era. Ficaram as andorinhas barradas de manteiga branca e  uma crença estranha que salvamos a alma se comermos este pão espanhol tão branco, imaculado.

Aqui o vento imita o tráfego das grandes cidades. Percorre as ruas, conflui, dispersa-se, apita amiúde, num sopro sibilante. À semelhança do roncar dos motores das grandes avenidas, se  incomoda, fecha-se a porta. Que importa. Dentro de casa, com portas e janelas fechadas, o exterior é uma abstração, um reflexo de  realidade, uma construção  com alicerces de experiências passadas e com paredes pintadas de ilusão. Por agora, deixo Platão para mais tarde. Afinal, pensar é estar doente dos olhos, como escreveu o mestre Caeiro.

Desço barbeado à escarpa altaneira num ritual que cumpro há anos. O lugar chama-se o Salto da Cabra. Foram os contrabandistas que puseram o nome. Levo um manto branco sobre os ombros, uma mitra(1) escarlate na cabeça e carne antiga numa bandeja de prata para as rapaces (2).

No Salto da Cabra, fico a sós com as terras a perder de vista. Ali, julgo-me  um sacerdote, um xamã(3), um homem do lixo, sei lá...Fecho os olhos, como há pouco fechava as portas e janelas, e deixo de ser uma coisa individual. Agora faço parto do todo, como se não morresse nunca, como se fosse uma personagem bíblica ou um pequeno cristal incrustado ao granito.

Volto a casa por uma estrada feita por mãos e pés invisíveis. Depois escrevo tudo isto como uma fotografia tremida.

O almoço estende-se como uma pequena praia entre a infância e a adulta idade do vinho. Adormeço depois sobre o clamor de uma aguardente de medronho - o sabor mais verídico que conheço da terra.

À tarde, desço ao cemitério, para sentir quem morreu nos últimos mil anos. Pedir aos céus, que eles descansem em paz nesta aldeia, é redundante.

No cimo de um barranco, afago a penugem da pedra. Chamam-lhe líquenes, quase todos. Sinto a terra excitada, húmida. É primavera. Fico embevecido, vencido neste jogo antigo. Vergo-me de novo diante a paisagem: cansaço ou veneração ?

Rudeza e ternura são as duas palavras que encontro no bolso roto das calças para escrever esta sublimação que me aflora os olhos, seca a garganta e de, sangue novo, me enche o coração.

À noite, a escuridão vira mundo do avesso e só vejo o forro das coisas. A aldeia abre-se como um livro de mistérios, e vou virando as suas  páginas feitas de ardósia e musgo.

Adormeço, convencido pelo piar da coruja que alguém guardou dentro da torre sineira.


Salvaterra do Extremo, Páscoa de 2014

(1)  Chapéu cerimonial do bispo.
(2)  Aves carnívoras , de garras potentes e bico robusto em forma de gancho
(3) Feiticeiro indígena nas culturas ameríndias



Fotografias de Duarte Belo extraídas do livro "Terras templárias da Idanha" - Edt. Assírio e Alvim

Ligação:www.duartebelo.com

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo - Torre medieval (2005)


Salvaterra do Extremo - Rio Erges (2005)











quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Teatro de excelência na Amadora

Recomendo vivamente que assistam a dois espetáculos de teatro que tive já o privilégio de assistir:

"O urso" de Anton Tcheckov no Auditório de Alfornelos (Amadora) no dia 10 de setembro pelas 21:30 (4 euros) e "Variações à beira de um lago" de David Mamet nos dias 16, 17 e 18 de setembro nos Recreios da Amadora (Junto à estação da CP) 

São dois textos incríveis e excelentemente encenados e interpretados. Não perca, porque vai lembrar-se deles para o resto da vida.



"Variações à beira de um lago" - Teatro dos Aloés 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Da impossibilidade dos espelhos

“Eu nada tenho a dizer de mim, sólida, simples e inteiramente, sem confusão e sem mistura, nem uma palavra…Não há descrição que iguale, em dificuldade, à descrição de si mesmo”.


Montaigne (séc.XVI), Ensaios


terça-feira, 23 de agosto de 2016

O destino

Estava dentro de água quando premeditou que se  homens e mulheres se desligassem de tudo o que os prende - compromissos, rotinas e tarefas - e partissem na senda daquele local para onde  a sua vontade mais intima  os impele,  chegariam algures. Não chegariam sós. Nesse hipotético local, outros tantos se reuniriam, por ter escutado o mesmo chamamento interior. Entre eles, os novos vizinhos, chamar-se-iam de irmãos e irmãs. O caminho para lá seria longo e no início solitário. Gradualmente, convergiria para a caminhada, mais e mais gente. Ninguém se tocaria ou falaria, sob pena de esmagar aquela voz que dentro de cada um deles os guiava. No limite, fechariam os olhos, deixando-se guiar por crianças.  À caminhada chamariam deserto e ao local de encontro, destino.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Homem duplicado

O homem duplicado foi aprovado  em sessão autárquica

como se o gato da fenomenologia,
olhando pela janela,
não entendesse já, que em cada coisa repousa
a imanência de um olhar pessoal

como se o transeunte não conhecesse apenas
a transcendência escassa
que vai do seu nariz ao virar da esquina

como se cada letra não se entregasse a outra letra
por mero acaso histórico

como se a rapariga que fecha os olhos
não fosse a única a reconhecer o caminho
no mais brilhante dia de verão

O homem duplicado foi aprovado  em sessão autárquica

E deus riu-se







sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O meu avô

Que deus era o teu, Avô ? O da terra vermelha transmutada em tons de verde e castanho nas veias vitreas dos sobreiros? Como era simples o teu deus: sem palavras,  nem orações.  Ninguém te ensinou deus e tu aprendeste-o, nos corpos dos homens que saiam das searas para a taberna e no passo miúdo das raparigas ao domingo a caminho da cataquese. Tu conhecias deus sem o saberes, eis o mistério.  Sentias-o na pele, na cama, ao fim do dia quando cansado voltavas silencioso para casa.  Cada cumprimento teu era uma pedra escrita com os mandamentos.  E quanto aos sacramentos, limitavas a copiar o que vias. Afinal foi assim que aprendeste a semear o grão e o feijão.

Mais tarde, ninguém te entendeu, quando te reformaste e decidiste viver numa indigência de monge. O Nuno Álvares Pereira fez o mesmo.  Mas esse como era rico e poderoso, todos concordaram que ele só podia ser santo. Tu não podias. Eras só um forreta. Ninguém entendeu que querias viver naquela paz que só existe na pobreza,  onde não há lugar para a propriedade,  nem para o terrível medo em perdê-la.

Avô,  foste santo e não o sabias.  Ninguém to disse. E nenhum santo verdadeiro se acha à altura do seu título.

Eras simplesmente o avô e a prova cabal dessa natureza é que já esqueci o teu nome.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O tempo passou

O tempo passou
e não se amarrou
à boca insonora
das esferas celestiais

Alguns anjos
 chegaram irritados
sem notícias nem canções
para nos dar

E só no voar
dos pequenos pássaros
perscrutámos ao de leve
o som longínquo das velhas primaveras

(É fácil falar com o passado
através das asas dos pássaros.
Basta ser talvez.)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

"Academia das Musas" de José Luís Guerin

Um professor de Filologia  na Universidade de Barcelona ensina Teoria da Poesia. Recorre a Dante, às suas criações literárias, às suas paixões. Diz que o amor é uma criação literária e que a poesia e as suas derivações, como a música ou a dança, transformam os animais em seres humanos. Fala do amor platónico de Dante Alighieri por Beatrice, do caso de Paolo por Francesca,  relatado no "Inferno". Este adultério entre cunhados inicia-se no momento em que ambos lêem uma passagem onde Lancelot e Guinevere se beijam num livro de cavalaria medieval. O professor tenta provar que o amor é coisa mental e não carnal. Entre as alunas e alunos, tem quatro que ganham importância durante o filme-documentário. São as suas musas. A esposa do professor sofre, mas aceita. O professor diz-lhe que ensinar é também seduzir. No final, fica alguma dúvida sobre a natureza das musas e dos poetas. Quem é quem ? Não serão também os poetas musas acidentais ? Não será essa a finalidade da poesia: não deixar que a humanidade se desintegre?

O professor fala ainda de Orfeu e de Euridice. Orfeu falou e cantou aos mortos para trazer à vida a sua amada, quando esta se encontrava já no submundo dos mortos. Fazer poesia é falar com os mortos, estejam eles impressos no ADN ou na linguagem que eles mesmo inventaram para nós, os vivos. Na verdade, todo o poeta sabe disso e tem a secreta ambição de falar com os vivos depois de morto.

É também disto que trata  "Academia das Musas" do cineasta catalão José Luis Guerin. O filme de 92 minutos é uma aula do ponto vista formal e conceitual. Está no Monumental no Saldanha. Tem várias sessões, mas a das 19:45 dá muito jeito. E o preço dos bilhetes é de 5 euros. Vá ver o filme e ajude a salvar a humanidade.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Temeridade

Tememos a polícia e as finanças
Tememos a nossa vontade e a do nosso irmão
Tememos a força e a fraqueza
Tememos até a liberdade

Então porque não Te tememos, Senhor  ?

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A riqueza (e angústia) das nações



Confesso que em tempos idos namorei com os mercados. Agora que eles me "torcem o nariz", declaro-vos a minha antipatia por eles. Não pensem que vou "andar à galheta" com algum dos seus arautos, correlegionários, doutrinados ou doutrinadores. Nada disso. Procuro antes um argumento categórico, uma corrente filosófica capaz de arregimentar um exército ou pelo menos justificar-me os atos diante dos meus ascendentes, descendentes e irmãos.

Temos o mercado de capitais, o bolsista, o cambial, o de trabalho, dos jogadores e o que mais engraço, o mercado local com alfaces murchas e nêsperas pequenas, mas verdadeiras.

Os mercados põem e dispõem, assustam-se e irritam-se. São poderosos como os deuses do Olimpo e, por isso, devemos temê-los e jamais ofendê-los ou desafiá-los. Lembrai-vos das tragédias! Talvez por tradição, os gregos metem-se amiúde com eles.

E porque não há eremitério que se coadune com a minha consciência, nem com o meu comodismo, vou andar por ai como uma erva daninha, misturando-me na multidão, tentando escapar à sachadelas de um qualquer mercado que se lembre de se entreter a limpar a sua horta.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A mais longa coação

A mais longa coação dos corpos
ocorre sob regras ditadas pelo senhor Kant
e, em ondas sublimes,
recolhidas pelo centésimo tal
sentido oculto do xamã

A mais longa coação dos corpos
substitui a razão por um sussurro
nascido de um brilho instantâneo, solúvel,
como a última faisca verde daquele sol
que por detrás do mar se põe,
quando percebemos sem querer
a suavidade das penas, dos pelos
na derradeira tarde de verão

A mais longa coação dos corpos
são os teus lábios entreabertos,
ora murmurando, ora apelando
ao gosto mastigado, mas sincero,
dos meus




terça-feira, 7 de junho de 2016

Somos assim, segundo Dostoiévsky


Anjos cadentes

Tenho uma mala castanha
e inexplicável
chamada Deus.
Quando a abro,
tenho tudo o que preciso.
Até o infinito arrumei por lá.
Abro-a para orar três vezes ao dia.

Depois fecho-a
e retomo a angústia alucinante da queda livre.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

From greeks

Half of our bones
bubbling as airy temples

The other half,
seeping up in the footsteps
that Pegasus drew on clay

Are men, gods
or the gods, men?

Statues, poems and fine figures,
moving from urn to urn,
recall plaster souls in plain cloths.

All white over white
In the background starry darkness for each islands,
a sun tunnel fading in sleep,
a faint,
for when we wake up costumed liked fauns,

Athena has already become an angel,
illuminating the rowers' fearless ignorance.

(tradução de Ronan Hyancinthe)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Dos gregos

Metade dos nossos ossos
borbulhando como templos gasosos

A outra metade,
escoando-se nas pegadas
que Pégaso desenhou na argila

Serão os homens, deuses
ou os deuses, homens ?

Estátuas, poemas e cuidadosas figuras,
movendo-se de vaso em vaso,
lembram almas de gesso em pano cru.

Ao fundo, as trevas estreladas por ilhas,
enquanto um túnel de sol
desvanece num sono, num desmaio,
para quando acordarmos, trajados de faunos,
Atena seja já um anjo,
iluminando a impávida ignorância dos remadores.


terça-feira, 17 de maio de 2016

Ouvindo o mestre Hélder

No lançamento do meu livro "A Moura", convidei o mestre Hélder Costa para o apresentar. Foi um prazer ouvi-lo e conversar com ele antes e depois do lançamento. Uma lição de história e de coragem, a sua vida.

Obrigado, Hélder,

Eu e Hélder Costa no lançamento de "A Moura" no Auditório de Alfornelos

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A segurança na internet

O problema era tão grande
que cada pergunta apenas almejava
um pestanejar breve
da lesma.
E sempre da mesma. 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Verdade, le parfum

Nas traseiras da minha casa
o chão enlouqueceu.

O sortilégio surgiu de um solavanco apenas,
vindo do ego da terra.

E o que jazia, negro e desastroso, floresceu.

E que odor esclarecido carregam agora
as pequenas fadas até aos nossos
inertes narizes.

Se um publicitário desse um nome
a este perfume de margaridas
chamar-lhe-ia "Verdade".
Isso.
Somente, "Verdade".


terça-feira, 12 de abril de 2016

Margaridas

São brancas, amarelas e verdes, as margaridas.

Ninguém as plantou ou regou,
mas nasceram aos molhos
e bem vestidas
nos folhos da rocha ígnea.

Talvez as suas sementes
sejam os gafanhotos que Deus cospe
quando grita as leis lá no céu, talvez.

Fazem lembrar-me o poema das 'Liláceas'
que o Camilo Pessanha escreveu.

É um poema tão harmónico e completo,
que ao pensar nele,
decidi parar o meu.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Peixe dourado

A menina das fotocópias  tem um peixe dourado.
Só lhe dá flocos  alemães.
A bomba de ar avariou-se
e aquela quietude lembrou-me
a simplicidade que outrora apreciei
numa gravura que decorava
um restaurante chinês.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A última quinta-feira do mês

Esconde
o que escondido está.

Isso mesmo, irmã.

Esconde-o num mistério
enrolado em betão maduro
de uma periferia
onde não se vislumbra a lua,
nem nenhuma mercearia aberta,
nem um pardal sequer

Se calhar ainda não entendeste
que estás em trânsito para a esperança da noite,
onde um vão de escada e uma mão-cheia de gatos
te esperam
para relançar de novo esse hálito noturno
na primeira sexta-feira de abril.

terça-feira, 29 de março de 2016

o teatro e os humanos

“Há 15.500 atrás, à luz da fogueira, um caçador conta aos outros membros da tribo, com palavras e gestos, as peripécias da última caçada. Desta forma simples, permite que todos os outros experimentem aqueles acontecimentos por ele vividos ou imaginados. Este hipotético espetáculo revela-nos a natureza vital e primordial do teatro. Ele abriga-se na cultura e nos genes dos sobreviventes – aqueles que tiveram o arrojo de contar uma história e os que tiveram a humildade da presenciar. O teatro é uma arte tão permanente quanto a espécie humana." 

Breve texto da minha autoria publicada em https://espalhafactos.com/2016/03/27/dia-mundial-do-teatro-2/

segunda-feira, 14 de março de 2016

escuro

a propósito de uma falha de luz no bairro

   talvez quando o sol se puser
   o sol se ponha
   e o silêncio encha deveras
   o núcleo e  a aparência
  das coisas

  e tudo
  mesmo tudo
  se apague
  tornando-se enfim
  real

terça-feira, 8 de março de 2016

"Pessoa"

"Pessoa", um dos espetáculos em cartaz do Teatro Passagem de Nível,  foi baseado na obra "Pessoa contado às crianças adultas" de Jorge Chichorro Rodrigues e  adaptado e encenado pelo Porfírio Santana Lopes para teatro.

O espetáculo funciona como um ritual sagrado em redor da vida e da consciência literária pessoana. Os seus três principais heterónimos são personagens da peça, bem como, a sua mãe e a sua namoradinha Ofélia Queiroz. O espetáculo tem a duração de uma hora e está nomeado para sete prémios do CONTE 2016 (Concurso Nacional de Teatro).

Ensaio geral de "Pessoa" no Theatro Club - Póvoa do Lanhoso 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Chiuu...

olha:
fala baixinho
não assustes a primavera
que ela vem de mansinho
e eu muito dela preciso
para recomeçar uma vida nova



domingo, 28 de fevereiro de 2016

monte do pilar

do vento vinha o norte
e do rochedo, um país

lá longe
à distância de um lobo
ouviam-se os rios
a dedilhar as serras

o sal fértil corria
discreto
de um buraco virginal

molhado e confuso,
andava ali um pastor
que no buraco se acoitou
e chamou-lhe portugal

Foto de Jorge Couto  no Monte do Pilar - Lanhoso


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

imutável

"Deus é adorado, porque o homem tem saudades dele" - Teixeira de Pascoes


Se o passado cristaliza o novo dia, só é possível respirar através da canalização complexa do edifício.

Resta-nos orar,  preenchidos de nada, como ascetas ou contemplar folhas de nogueira quando recém nascem ou os carreiros de formigas, determinados pela mais ínfima teimosia das ervas.

Só tudo tem, quem nada quer.

Ó velho relógio parado e esquecido na sombra do alçado,
ensina-me a não desejar,
   porque não ser, também é.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Mercado

Amarrado ao meu destino de artista, perguntei ao mercado, quanto vale uma emoção ?

Respondeu-me, por escrito e em carta registada, que vale muito pouco, sobretudo pela dificuldade em embrulhá-la.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A mais elegante flor

A D.Susete Matos foi uma das profundas raízes do Teatro Passagem de Nivel, mas será para sempre uma das suas mais elegantes flores.
Até sempre, amiga



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

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