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terça-feira, 7 de julho de 2015

Hoje há caracóis

Se a mão do ato fere a melancolia,
pensar nela apenas a enxota -
com graça, às vezes,
sem vitalidade, quase sempre.

 Creio que é por amor,
 e não por medo,
que aceito este sofrimento de agir tão levemente.

Creio na magia de Não Ser
e deserto trôpego das trincheiras,
como um profeta anónimo
que colhe de flor em flor
o microscópico pólen de curtos dias.

Visto-me de preto
para fenecer no firmamento.
E assim preparo discreto, ou mesmo nulo,
o caminho dos vindouros - sua esperança e alegria.

Ensaio com persistência
a ausência de palavras,
para que no altar da estreia
não me falte o silêncio.

Novos navegadores

O casco das naus roçando
a copa dos pinheiros
faz lembrar o índico vento.

Os esquálidos e rotos marinheiros
que descem o tronco do sobreiro,
parecem formigas a caminho
de um caroço de alperce.

A glória e ganância deslizando
na pena dos jograis
são remotas reminiscências de auspícios
saltando de capa em capa
na montra dos jornais.

E mesmo o astrolábio
medindo a medo o firmamento
foi inspirado quiçá
no relógio de cuco
de um pensionista grego.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Tartarugas

Para a Fatinha,

Somos  duas tartarugas antigas lentas
cruzando  a estranheza mundana dos supermercados,
dos medos, das exaltações casuais.

Somos duas tartarugas feias
perpetuando a história de um crime,
um mistério interminavelmente falado nos jornais,
duas sombras impossíveis numa noite de assombros.

Somos duas tartarugas
porque tínhamos de ser qualquer coisa de eterno
e fraco como um sábio velho

que viaja espectral sem destino certo.


A tua morte é o fim do mundo ?



Gostava que pensassem nisto.



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