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terça-feira, 30 de junho de 2015

Golgona Anghel

Assisti a uma intervenção sua no lançamento do livro de ensaios sobre a obra do Ruy Belo, “Literatura explicativa”  da Assírio & Alvim. Tinha um sotaque estrangeiro, mas articulava com grande rigor e riqueza a língua de Camões. A sua intervenção saía dos canones habituais. Tinha humor e uma provocação propositada. Fiquei com curiosidade de quem seria a tal menina e procurei-a na internet. Afinal era a poetisa romena Golgona Anghel. Já tinha ouvido falar do seu livro “Vim porque me pagavam” da Mariposa Azul. Comprei-o. Ando a lê-lo e a deliciar-me (às vezes deixo escapar mesmos umas gargalhadas tal a qualidade da sua ironia).

Deixo-vos um dos poemas:

Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.




segunda-feira, 29 de junho de 2015

O louco

O senhor do sexto andar é louco.
Sei do que falo.
Juro-vos que não é insinuação.
Porque o tal senhor sou eu.

E as pequerruchas do rés-do-chão gritam
assustadas ao vê-lo
despenteado e acossado
pelo medo que ele tem dele próprio.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

animal da tundra

para o meu filho pedro, este poema quase tão longo como esta dedicatória. Foi ele quem me alcunhou de animal da Tundra.

alimento-me de pequenas ervas
como um herbívoro lento e contemplativo
ensinado por pastores mudos
para a nudez da tundra


segunda-feira, 22 de junho de 2015

O trigo e o joio

Escuta as coisas  inaudíveis  do devir
Não antecipes a foice ao teu lento olhar
Não colhas as espigas antes do seu florir
Só no forno do tempo,  o pão há-de brotar






quarta-feira, 17 de junho de 2015

O caminho

O caminho é doloroso. São quarenta anos no deserto até à terra prometida. Quem perde a esperança e a fé definha no deserto. É preciso acreditar ainda que estrada seja longa e a vida se encurte a seu ritmo natural.

Foto de Sebastião Salgado 

terça-feira, 9 de junho de 2015

"Alegoria da caverna" de Platão

Ator olhando as sombras do espetáculo, enquanto espera o momento para entrar em cena (Foto de Jorge Couto)

Homo Viator

Não somos um templo de sacrifícios, mas um corpo transcendental tornado humano e depois universal. Não somos uma tábua de leis, mas uma consciência que se forma como um rio de palavras. Somos o Homo Viator - o homem sempre em viagem atrás do sonho de encontrar irmãos.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

A raiana e búfalo

Vem montar o búfalo que espera por ti junto do rio, raiana.
Ele vai levar-te a ver as doidas terras de Espanha
Onde comprarás um chapéu azul e um casaco estampado de junquilhos brancos.
Lento, ele atravessará os morros barrentos, mas perfumados de alecrim e rosmaninho
E sobre o seu tosco lombo, os teus pés de princesa , vestindo chinelos de seda cor de carmesim,
Roçarão as ervas do caminho refrescadas pelas brisa  que cai das asas das borboletas.

Vem ao encontro da besta que te faz poemas patetas, como todos os poemas, enfim.
Ele vai contar-te histórias e mais histórias até que a noite chegue em seu manto estampado de galáxias.

Vem, raiana, vem.
Não ouves ? Já tocam os sinos da aldeia, anunciando aos pássaros a nossa boda bestial
E pela rua do forno vem o senhor padre seguido de um bando de andorinhas que sabem cantar em latim
Mais atrás mulheres dos campos rufando os seus adufes anti-castelhanos
E no fim da procissão um cão, irmão dos ciganos, que ladra porque sim.

Vem, raiana, vem
Antes que seja tarde,
antes que o rio cresça, os junquilhos murchem, as borboletas morram, as andorinhas migrem
e o cão dos ciganos morra de esgana atrás da última oliveira da devesa.

O búfalo espera por ti,
E mesmo que não venhas, diz-lhe que sim, raiana, ele precisa de ver a esperança
No fundo dos teus olhos verde-esmeralda e sobre a tua pele branca e lisa de marfim.

Raquel

Depois de caminhar vinte anos longe do teatro, voltei a ele como o pastor Jacob que amava Raquel no soneto de Camões:




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!



[Luís Vaz de Camões]

quarta-feira, 3 de junho de 2015

a propósito da espiritualidade

O homem da segunda fila  perguntou: “Quando mataram Deus para criar o Super-Homem Nietcheziano, não começámos todos a ficar egocêntricos ? Não seria Deus o que nos reunia a todos ?  E o Espírito Santo, esse terceiro elemento que nos torna irmão do outro, o que ganhámos em  torná-lo omisso no nosso pensamento ?”

O escritor com oitenta anos respondeu: “Não devemos perder a espiritualidade. Isso é fulcral. Mas há um conjunto de regras que tentam instrumentalizar politicamente essa necessidade com as quais eu não concordo. Quem me obriga a seguir regras, se quero apenas encontrar Deus ? Respondi à sua pergunta?”


O homem da segunda fila respondeu: ”Muito obrigado, senhor escritor. Claro que sim.”. 

Contudo ficou a pensar: Como é possível exercer a espiritualidade sem religião ? Não será demasiado insolente da parte de um indivíduo descartar um culto que se renova, uma instituição que se adapta e dissemina, ao longo dos séculos um caminho para o transcendente ? Certamente, que o escritor teria também morto Deus e nunca mais o encontrara. Nem sequer o seu corpo morto debaixo de alguma memória, sentimento ou aflição.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Domingos Galamba - Vida e Obra incompletas

Domingos Galamba e Leonor Galamba


O sócio número um do Teatro Passagem de Nível, o nosso caro amigo Domingos Galamba, nasceu na Aldeia Nova de São Bento, agora com a pomposa promoção a  vila, mas para o Domingos será sempre a Aldeia, a sua aldeia do concelho de Serpa. Ele por lá nasceu há 54 anos atrás, no seio de uma família de 6 irmãos. Em 1975, muda-se como muitos outros alentejanos para a cidade da Amadora, onde se instala na Rua da Reboleira na Falagueira, bem perto da antiga casa de pasto do Pedro dos Coelhos - não sei  se ele ainda tinha esperanças de encontrar por lá o Eça de Queiroz ou o Urtigão ? Para trás fica a infância, as árvores, os pássaros, essa memória que se agarra aos poetas e não só e nunca mais larga. Creio mesmo que foi em jeito de catarse dessa ilusão que foi Lisboa que escreveu:

"Se hoje penso
à beira dos caminhos
que me levam à cidade
é com uma fúria
de atirar pedras ao vento
para pedir juros
o meu tempo
perdido em tanto
contratempo
nas curvas
que me roubaram
a verdade."

Mas a capital e a Amadora não foram apenas nostalgias. Em 1981 ajuda a criar o Teatro Passagem de Nível e conhece a sua actual companheira Matilde Matos ( eu prefiro o su apelido de Cañamero, é mais giro). Ambos se envolvem como atores e produtores e tudo o que havia para fazer num teatro amador onde todos fazem um pouco de tudo. Em 1982, regressa ao Alentejo, para cumprir o serviço militar.


Talvez por lá escreva o poema “Cante”:

"Foi do silêncio da terra
Que arrancaste a tua voz
Para iluminares o caminho.

Como és generoso
Achaste mas honroso
Não a cantares sozinho.

E como te brotou
Em forma de lamento sem choro
Projectaste-a em coro.

Contra o dia."


Em Lisboa, entra para a equipa de cenografia do São Carlos e inicia a sua carreira profissional. Apetece-me chamar-lhe,  como se chamava aos canteiros que esculpiam a pedra das igrejas na idade média, mestre imaginário. E foi essa imaginação que levou a escrever  muitos poemas, dos quais alguns agora repito, contos e sobretudo peças de teatro, porque é como dramaturgo que Domingos Galamba tem se revelado mais no panorama cultural. Continua os seus estudos no Cacém, onde priva com o seu amigo e poeta Izidro Alves:


"Ao Izidro

Tu sabias velhos truques
Para nos defender do mundo
Palavras simples para nos abrigar da solidão
Algumas alegrias para tudo sonhar.

Caminhávamos
Como se semeássemos poemas
Agricultores da cidade
Que não floriu
Repetindo pedras de calçada
Por tantas ruas.

E ainda temos a alma em branco
Das ilusões que rebentam
Na primavera que não chega."

Há sempre na sua voz um homem que foi à infância e voltou de lá com histórias e poemas. Histórias como o “Livro da ilusão”  ou aquelas que traz  do Alentejo, onde encontra sempre refúgio e novas histórias para nos contar quando regressa. Ainda que esse Alentejo da infância se encontre cada vez mais só. A sua aldeia encolheu de tal forma, que Domingos em 2013/2014 escreve a peça “Aldeia vende como nova”, uma comédia onde se tenta vender a parte da aldeia desabitada aos chineses,  aos árabes, aos africanos…enfim a quem queira gostar dela como ela é, ou seja, atualmente muita pouca gente:


"Duas ruas
Desertas
Por um
Caminho
De pó.

Um monte
De portas
Abertas.

Um sobreiro
Só."

Um dos poemas que mais me toca na sua poesia é aquele que sacraliza a despedida do seu avô de quem tanto gostava. Perdoa-me, Domingos, esta inconfidência, mas acho-a tão bonita que tenho de a partilhar.  O avô, ao morrer-lhe o último amigo, decidiu deitar-se e esperar que a morte viesse busca-lo. Eu acho que o Domingos partilha o mesmo amor pelos amigos.

Janeiro e o meu avô

"Sempre te deste mal
com o mês de Janeiro.
Ou ele contigo
guerras antigas
vocês é que sabiam...
Era ruim, chuva e frio
que até geavam os ossos.
Isso tu aguentavas bem
mas estragar-te a sementeira
e trazer-te algumas fomes à boca
deve ter sido a mágoa maior
que nunca lhe perdoaste.
Depois de mais de noventa
Janeiros no Alentejo
sabias que ele te espreitava.
Mas não tinhas medo.
Acendias um lume
cada dia maior e esperavas.
Quando ele partia
vinhas na pressa serena
do teu cajado à minha procura
com uma alegria mais nova do que eu.
Já não morro este ano
dizias com uma certeza
maior do que o sol.
Eu ficava contente
mas não acreditava.
No fim de um Dezembro escuro
mandaste chamar-me
para a despedida.
Abalaste com esse Janeiro.
Vocês tinham muitas contas para acertar. "


A vida é aquilo que acontece enquanto nós fazemos planos. E na vida do Domingos surgiram os seus filhos, a Leonor e o Miguel. Talvez nestes três versos, ele fale deles sem saber:

"Por nunca buscar horas maduras
Só nos verdes momentos
Provei o sabor dos dias."

Mas como todo o bom português, o Domingos esteve sempre à altura dos obstáculos naturais da vida. Bem  conheço a sua frontalidade, sentido de humor e autenticidade. Sempre se desenrascou como aqueles  alentejanos que foram nas caravelas e ninguém como eles houve para desbravar o caminho das matas virgens:

"Junto
Às mágoas
Dorme
O sonho.
Amanhã
Pela manhã
Virão
Os olhos acordar-me.

O resto Invento."

Dia mundial da criança

Escrever poesia é regressar à infância
descalço
quando se ouve  a mãe dizer:
“o almoço está na mesa.”


E regressar de lá com um poema.


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