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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Escrever a voz

escrever teatro
é ouvir nas palavras
a voz dos outros

e acender
nos olhos dos atores
a luz de uma memória
indizivel

terça-feira, 26 de maio de 2015

Sebastião "Ulisses" Salgado

O Sebastião Salgado representa para mim o Ulisses dos tempos modernos.  Foi combater na “Guerra de Tróia”, levando a sua câmara fotográfica como arma. Nos combates, para mostrar ao mundo outros mundos, foi obstinado e destemido: Sahel, Ruanda, Serra Pelada, Ártico, Balcãs e muitos outros locais. Cansado da alma, como ele o próprio afirma, no documentário “Sal da Terra”, regressa à sua Ítaca, ou seja à fazenda dos seus pais. Naquele momento, completamente desarborizada e sem vida. Ele e a mulher, Leila, decide replantar aquele lugar com três milhões de árvores de cem espécies diferentes, todas elas pertencentes ao biótipo da “Mata Atlântica” brasileira. É um projecto com avanços e recuos, naturais de quando falamos em organismos vivos. Hoje aquele lugar é uma floresta esplendorosa, com árvores que atingem o seu auge aos 400 anos de vida. Salgado procurou e descobriu uma metáfora forte para representar a eternidade.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Ítaca de konstantinos kavafis

Se vais regressar a Ítaca,
Toma o caminho mais longo,
Rico em experiência, em conhecimento.
E quanto aos Lestrígones, aos Ciclopes,
Ou mesmo ao furioso Posídeon nunca os temas,
Não os encontrarás no caminho,
Se for alto o teu pensamento
E limpa a emoção do teu corpo e espírito.
Nem  Lestrígones, nem os Ciclopes
Nem o furioso Posídeon encontrarás,
Se não os levas dentro da tua alma
Se não for ela que diante de ti os põe.

Pede que sempre o caminho seja longo.
E  numerosas as manhãs de verão.
Com prazer, felizmente,
Arriba a baías nunca vistas;
Regala-te diante dos impérios da Fenícia
E compra as suas formosas mercadorias,
Madre-pérolas e coral e âmbar e ébano,
Perfumes deliciosos e diferentes.
E quando poderes, envolve-te em suas voluptuosas e delicadas fragrâncias.
Visita muitas cidades do Egipto
E com avidez aprende com os seus sábios.


Tem sempre Ítaca na memória.
Lá chegar é a tua meta.
Porém não apresses a viagem.
Melhor será estendê-la pelos anos
e chegares já velho à ilha
e com quanto ganhaste pelo caminho.
Pois não esperes que Ítaca te enriqueça.
Ítaca presenteou-te com uma viagem tão bonita 
Sem ela nunca te terias posto ao caminho.
Porém nenhuma outra coisa ela pode dar-te.
Ainda que a encontres pobre, Ítaca nunca te enganará.
Rico em saber e vida, como voltaste,
Compreendes já o que significam as Itacas.

[Tradução do espanhol e Brasileiro por Luís Palma Gomes]



domingo, 17 de maio de 2015

manhã velha

acendo a bandeira
num jogo de luz
intenso

e a manhã percorre
o quarto
acordando os cantos
entregando-os ao labor
da claridade

a gata cheira
as flores de plástico
num ritual
que lhe compete

olho as paredes
e vejo-as centenárias
cobertas de amarelo-fuligem
tingidas pelos cigarros interruptos
de um tempo que fuma, ansioso,
por nos engolir

apetece-me um poema
talvez seja um vício,
como o café
 não sei...
poemar é um estalido
uma minúscula faísca
que nos põe a pensar
que me faz escutar
a quinta-essência dos bardos,
a rouquidão dos xamãs que viajam
no dorso dos mortos

lá fora
um verão recente chama-me
como  crias esfomeadas
a piar

levanto-me
e insisto, mais uma vez,
na vida 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

condições alquimicas






  se o mar também nada

        e o vento também voa

              e o calor também arde

                   e a terra também sofre

    então o poema também tudo





terça-feira, 12 de maio de 2015

um pedido

Depois de ler este belissimo poema do Rainer Maria Rilke (Tradução de Paulo Quintela), 


escrevi:

"apesar do clarão, ainda me ouves, Rilke ?
estou preso no fosso do dia
traz-me depressa
aquela escuridão que varre a luz
para debaixo do mar

essa luz que torce e esmaga
a magia (apenas)  pressentida da cegueira"



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Civilização Ramsay

Ontem televisionei, por conselho de um amigo e para lhe fazer companhia, os “Desgostos de Ramsay”.

Para além de ser uma série de entretimento que mistura gestão de restaurantes, culinária e uma pitada da ficção documental tão na moda, tinha a meu ver uma mensagem subliminar interessante: Chegava um louraço de olhos azuis, ao que dizem britânico, a um restaurante grego, em Nova Iorque, onde tudo corria mal. A organização, a confecção dos pratos, o higiene e as relações humanas.

 Ramsay com a sua incrível genialidade, endurece o discurso, reorganiza, aconselha aquela genta do sul tão medíocre. Mais tarde, fala com a filha que lhe confessa que os pais não mereciam que os negócios lhe corressem tão mal porque trabalhavam 15 horas por dia, 7 dias por semana, há 30 anos.

Eu penso que foi aqui que começou o busílis do restaurante, colocar gente sensata e generosa do Sul a viver numa sociedade materialista e liberal, onde ganhar dinheiro parece ser um desígnio mais importante que a própria vida.


Fuck you, Ramsay. (Et vive la Grèce!)


terça-feira, 5 de maio de 2015

Binómio do ter e usufruir

Quando mais temos, menos usufruímos. O tempo que passamos a trabalhar para adquirir o direito de propriedade, deixa-nos sem tempo para usufruir dos bens adquiridos, ou de outros que são por natureza gratuítos. Devíamos assim recorrer mais à partilha e adequar as nossas leis de trabalho para que as variáveis deste binómio se equilibrassem de forma a facultar-nos mais tempo livre e humanidade.

Charlot em "Tempos modernos"

domingo, 3 de maio de 2015

Despedida de Salvaterra do Extremo

Dizem que segues fantasias e ilusões, mas não.
É mesmo o calor na carne e o mel das palavras
que te fazem aproximar do lume.
E por ali ficas sentado ao borralho,
aceitando a morte como coisa autêntica.

Que diferença há entre ti e a papoila
que perde, folha a folha, o vermelho
na fulgurante migração do inverno ?

Não partiste também tu,
ó inábil poeta,
num bando de andorinhas
à procura das searas ricas ?

Cala-te então agora
e escuta a sagração do tempo
através do canto sincopado  do cuco,
embalado pelo chocalho das ovelhas.

Já começa a fazer-se tarde.
Embala os poemas e parte
pelo rio abaixo
a caminho do ocidente.

A manhã espera-te
do outro lado da noite,
onde aguardarás a madrugada
num redil de gado urbanizado.

Mas enquanto não te toma o esquecimento,
esse estado gasoso que precede a saudade,
inspira o segundo, o ponto final, o virar da página,
como gesto eterno ou eternamente repetido.



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