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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

madrugar

















Que em todas as manhãs do mundo,
regressasse à terra uma sinfonia de borboletas
e das suas asas viesse a luz inventar as novas cores antigas
e da escassez com que se faz a sede
viesse um riacho gordo entrar-nos pela a vida adentro


Regras para viver em Campo de Ourique


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Maria de Lurdes

A ti que me ensinaste a ver com o coração,
a ti que foste carinhosa com os fracos e rufia com os pequenos tiranos,
a ti que foste a  mãe das minhas  emoções,
a ti e apenas a ti, neste imenso pequeno momento, eu te saúdo,
Maria de Lurdes, minha ama de colo infinito.

Escrever com o sol na mão e ver o vento soprar

Escrever com o sol na mão e ver o vento soprar. Escrever palavras luminosas que preparem para o escuro. Escrever frases médias para não se cansarem ou perderem o fôlego. Escrever o silêncio e ouvir o mar ao longe. Escrever como se os dedos fossem galhos de árvores com folhas ainda verdes. Escrever os versos mais solares e mais vibrantes. Fechar os olhos e ver. Ver e reter o principal. Não ter medo do frio e da indigência. Virar-se para os outros em sorriso e em ajuda. Não ter dinheiro e dar muito, dar-nos. Aceitar o que nos dão, agradecendo. Fechar as luzes, reacende-las. Tocar o mistério, sem o anular. Tocar cada vez mais luminosamente. Tocam com muitas vozes a acompanhar. A corrente do amor é forte, mas não fulmina. Rimos e choramos. Ganhamos e perdemos. Vivemos, participamos do ser mais profundo que, de dentro, ilumina o mundo, fazendo-o dançar.

Maria Teresa Dias Furtado

"A palavra" de Carl Dryer

Pelo significado do Natal na cultura ocidental e da sua inspiração judaico-cristã, recomendo a todos a visualização do filme de Carl Dryer, “A palavra”. 

O objectivo da minha recomendação tem um sentido critico e um objectivo pedagógico. Recentrar a consciência em dois aspectos que parecem esquecidos e são fulcrais na ética ocidental: O milagre e Jesus Cristo. O filme reflecte sobre o regresso espiritual de Jesus Cristo à terra (Um estudante de Teologia que fala como se fosse Jesus Cristo), bem como do cariz sua mensagem e da importância do milagre, como último reduto da esperança humana. O milagre é o herdeiro natural do Deus Ex Machina das peças da antiguidade clássica, ou seja, o momento em que um Deus aparece para mudar a vida dos mortais. 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

"A moura"

No próximo dia 23 de janeiro, o Teatro Passagem de Nível estreia "A moura" de minha autoria:

"Em 1362, uma princesa moura permanece refém num convento entre Alcobaça e a Vila de Ourém, enquanto espera que o seu destino incerto se decida. El-Rei D.Pedro I, "O Justiceiro" ou "O Cruel",  anda em folguedos e montarias na região. Na Vila de Ourém, uma intriga política cresce entre um clima de feitiçaria e  um calor  feroz que teima em não abandonar aquelas paragens. A cobiça, a ambição, o amor jovem e tardio  são as forças em confronto naquela vila. Um grupo de mulheres e crianças, que vem em cruzada para resgatar os seus homens feitos prisioneiros na batalha do Salado,chega à vila. O seu destino é Córdoba, cidade do Al-Andaluz, território cada vez mais exíguo, numa península cada vez mais cristã. 

A princesa Moura chama-se Fátima, o nome da filha de Maomé, apesar de ter sido baptizada com o nome de Oriana no convento onde agora vive. Perto do local onde nos nossos dias se presta o culto à Virgem Maria algo acontece."

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Dois apontamentos sobre o desespero

I.

As bombas caiam sobre Berlim. Os aliados avançavam e tomavam a cidade. No bunker, o Estado-Maior alemão dançava ao som do swing e bebia champagne francês. Uma bomba fez tremer a sala da festa. Por momentos, houve um lapso de realidade. Depois a festa continuou.

 II.

O frágil polvo , perseguido por uma garoupa enorme, viu um buraco quase perfeito. Finalmente estava seguro. Entrou lá para dentro. Esperou algumas horas, enquanto a garoupa rondava aquele abrigo quase perfeito. O peixe, impotente,  acabou por partir. O polvo sossegou e deixou-se ficar num meio sono, com um olho ensonado e o outro amedrontado. Quando a luz vinda do céu cresceu, sentiu que o abrigo emergia. Não entendeu logo o que se passava. Resolveu ficar na segurança do buraco que afinal era apenas uma armadilha de pesca. O pescador retirou-o com um gancho e colocou-o numa caixa de madeira. Três minutos depois, virou-lhe a cabeça do avesso e o polvo, enchendo os guelras de ar, gritou o silêncio todo do mar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Não me disfarço de poeta

Não me disfarço de poeta
A minha coragem é a resistência
Não me escondo atrás de máscara
Enquanto luto pela existência


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

retribuir e agradecer

"O poeta vive o seu tempo, mas não se reduz a ele. Partilha dores e alegrias, indigna-se, comove-se. Nada do que é humano lhe é alheio. Mas quer oferecer, pela palavra reconstruída no silêncio, um tempo mais humano que possa invadir, com a colaboração livre dos leitores, o nosso tempo. Tempo em que pouco se vislumbra a esperança, a mudança de mentalidades, a cordialidade, a solidariedade. Então o poeta recorda a beleza, não a que foi, mas a que é: nas maravilhas da natureza e do coração humano, aceso em compreensão. O poeta não quer um pedestal, quer humanidade, um dar de mãos autêntico, uma fala a todos acessível que desperte o desejo de fazer melhor porque se sente amado. Poeta: também para retribuir e agradecer."

Texto da Professora Maria José Dias Furtado

Virgem negra

à Marcela Costa (over)

vem, virgem negra,
caminhando sobre o espectro das águas
beijar o outro lado da manhã,
iluminar este medo sonâmbulo
que comigo se deita todas as noites

vem, lânguida e plácida,
como uma folha caída
que regressa à árvore despida
e respira outra vez

Alfredo Cunha - Níger

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

viajar

entro por ti adentro
vasculho as profundezas, as miudezas,
as tripas profundas, as memórias
calcinadas


viajo-te enfim




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Destino

Entrego-Te o destino que devido à sua complexidade, me inibo de gerir. E se tudo me tirares, seja feita a Tua vontade.

Eu entendo os que me pedem para agir. Mas como fazê-lo ? Eu agora só sei esperar. Pela inércia, por ter baixado as armas, peço desculpa ao Deus da Guerra. Porém, todos os que em mim ainda confiam, devem saber que os poetas tem a disfunção de inventar a realidade. É impossivel colocarem-se no lugar de um poeta carregando na cabeça a casa grande da razão. É impossível. Somos diferentes e sempre incompletos, ainda que os nossos olhos carreguem mil anos de infantis  emoções.

Não tenham pena dos poetas. Não tenham inveja deles. Tentem compreendê-los e dar-lhes o benefício da invenção.

Poetas perigosos

Só meto com poetas perigosos. Primeiro, Ruy Belo que me deixou nostálgico. Agora o Manoel de Barros que  está deixando-me criança.

 E, para finalizar, preciso vos confessar: “Basta de Fernando Pessoa requentado”, ainda que seja o mais admirável poeta que já li.
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