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domingo, 30 de novembro de 2014

Como um inseto

à memória de Manoel de Barros

Serás excêntrico
à tua própria pele.

Como quem viaja
pela inércia aparente dos astros,
regressarás à Ítaca materna
despojado de todas as confusões da psique.

Diria que voltarás
como um inseto agora aliviado
do seu destino rasteiro.

Manoel de Barros - Poeta brasileiro (1916 - 2014)
 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Manoel de Barros, o apanhador de desperdícios



Manoel de Barros nasceu no Brasil há 97 anos atrás. Quando era muito jovem foi viver com a família para uma propriedade rural, onde conviveu com os animais, as plantas, enfim as coisas simples da vida. Quando tinha dez anos e estudava num colégio interno revoltou-se contra a escrita do Padre António Vieira por lhe parecer que a escrita do famoso pregador se preocupava mais com o estilo da frase do que com a verdade. Apesar de como irão ouvir a verdade para Manoel de Barros tem um cunho simples e deliciosamente ingénuo.

Formou-se em Direito e quando tinha 18 anos e vivia no Rio de Janeiro entrou para o Partido Comunista. Escreveu numa estátua “Viva o Comunismo” e a policia foi procurá-lo a casa. A dona da pensão, onde o poeta vivia, recebeu a policia e disse que não podiam pegar “o menino” porque ele era tão bom que até tinha escrito um livro chamado “ Nossa Senhora da Nossa Escuridão”. Os policiais não pegaram o menino poeta, mas levaram todos os exemplares do livro.


Manoel de Barros rompe com o Partido Comunista quando o seu líder, após 10 anos de prisão política, resolve apoiar o presidente Getúlio Vargas. Apís esta deceção, vive na Bolivia, Perú e durante um ano em nova Iorque onde faz um curso de cinema e pintura no Museu de Arte Moderna.
Na década de 60, volta a Campo Grande no Brasil, onde passou a viver como criador de gado, sem nunca deixar o seu incansável ofício de poeta.
Apesar de ter escrito muitos livros durante toda a sua vida e de ter ganho muitos  prémios literários desde 1960, durante muito tempo sua obra ficou desconhecida do grande público. Possivelmente porque o poeta não frequentava os meios literários e editoriais e tinha hábito bajular ninguém.



O seu trabalho começou a ser valorizado nacionalmente a partir da descoberta deste por parte de Millôr Fernandes, já na década de 1980. A partir daí, ganhou reconhecimento através de vários dos maiores prémios literários do Brasil.


Foi considerado o maior ou um dos maiores poetas do Brasil, sendo um dos mais aclamado nos círculos literários do seu país. O seu trabalho tem sido publicado em Portugal, onde é um dos poetas contemporâneos brasileiros mais conhecidos, na Espanha e na França.

Morreu com 97 anos há duas semanas atrás (uma prova como a poesia dá saúde), mas deixou para a língua portuguesa uma herança simples mas profundamente terapêutica nestes tempos em que às vezes tendemos a complicar a vida afinal tão simples como nos explica Manoel de Barros nos seus poemas.


A natureza é perfeita
















"Para quem lhes vê o encanto,
E lhes ouve a voz.
Para quem gosta de árvores que dão pássaros
A natureza é perfeita."

Helena Gil

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quando a terra tremer

Quando a terra voltar a tremer
e tudo enfim  desfalecer,
um pombo levará no bico
a brisa fértil das asas das borboletas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Não olhes de frente a Medusa

Não olhes a Medusa de frente, se não ela vai-te petrificar. Olha-a no reflexo do teu escudo, herói. Contorna-a com as sandálias aladas que Hermes tão fraternalmente te cederá. Pede auxílio à deusa da sabedoria, Atenas.  A espada, o elmo da invencibilidade e o escudo espelhado pede-os ao Deus dos mortos, Hades, porque ninguém é mais poderoso do que ele na hora de matar.

Quando cortares a cabeça à Medusa, tudo vai ficar mais leve. E do sangue por ela derramado, irá nascer um cavalo alado, Pégaso, representando a nova leveza do teu espírito e um gigante dourado que não é mais do que tua alma doravante.

Não olhes de frente a Medusa, irmão. Não olhes.

Perseu e a cabeça cortada da Medusa

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Não entres docilmente nessa noite serena

"Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia,
odeia, odeia a luz que começa a morrer."

Estes versos do poeta galês Dylan Thomas, são várias vezes repetidos no filme "Interstellar" de Christopher  Nolan que recomendo desde já. Quanto aos versos, são uma espécie de grito de revolta contra o tempo. 



terça-feira, 18 de novembro de 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Passarinho Anarquista (V)

O passarinho, no cagaruto de um  pinheiro bravo, piava aos sete ventos: "Não me venham falar em nome de todos os pássaros. Quando me vêm  com aquele discurso 'Para bem da passarada', cheira-me logo a esturro. Juntar, no mesmo saco, falcões e pardais, gaivotas e avestruzes, soa-me a demagogia da grossa e mata-se logo a discussão política." 

O passarinho anarquista (IV)

Hoje quando me dirigia para o café, vi o passarinho anarquista muito engolfado e deprimido. Perguntei-lhe, cheio de compaixão, o que se passava. Ele confessou que era um anarquista de "estufa" e que quando surgiam as primeiras auroras fascistas, ficava logo enrascado.
Eu reconfortei-o, mas segredei para os meus botões: "És mesmo um passarinho".

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Afinal foi Nietzsche quem morreu

"Deus morreu!" - escreveu Nietzsche.
Mais tarde, Deus deliberou "Nietzsche morreu..." e acabou de vez com qualquer equivoco de cariz modernista.

Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração

Os pássaros nascem na ponta das árvores 
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros 
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores 
Os pássaros começam onde as árvores acabam 
Os pássaros fazem cantar as árvores 
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se 
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal 
Como pássaros poisam as folhas na terra 
quando o outono desce veladamente sobre os campos 
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores 
mas deixo essa forma de dizer ao romancista 
é complicada e não se dá bem na poesia 
não foi ainda isolada da filosofia 
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros 
Quem é que lá os pendura nos ramos? 
De quem é a mão a inúmera mão? 
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Ondulação

Caiu-me
uma pedra nua
no ócio do coração,
agitando sobre o sangue das aortas
uma ligeira ondulação de negócio.

domingo, 9 de novembro de 2014

"O apanhador de desperdícios" de Manoel de Barros

Manoel de Barros - Poeta brasileiro







Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Para além do destino

Dentro  da velha Nau Catrineta
sobe rápido o marujo à vigia
sem monóculo nem sequer luneta
avista uma terra cheia de magia

"Terra à vista" sonoramente anuncia
a voz viril  corre da proa ao convés
e toda a marinhagem já se alivia
de tantos meses sem terra nos pés

"Vejam mais longe!" diz o capitão
que sempre mais ambição  tem
que sempre recusa qualquer emoção

"Vós vedes a terra, eu vejo o império"
perante tal valentia, da terra se esquecem
e seguem na Nau sem destino nem tédio


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Negro

É preciso fazer  um luto
para sair da sombra que foi sol
e feneceu no fim da planície,
onde os anjos arrumaram os instrumentos dourados
e saíram pela porta dos fundos sem glória.
Calaram-se os cânticos
e a planície parece outra vez um painel de azulejos
sem movimento aparente.
Convoco os suicidas para dizer-lhes que não vou com eles:
Sylvia Plath, Antero e Manuel Laranjeira
peço-vos desculpa, mas gosto de rebolar na terra
ainda que seja comprovadamente um acto indigno

É urgente fazer um luto da primeira vida
e entrar de mansinho na segunda.

Au revoir, mes ennemis

terça-feira, 4 de novembro de 2014

primavera em novembro

sim
valeu a pena
ter chegado aqui

fechar os olhos
e por detrás das pálpebras
projectar o passado
só agora  feliz

no inverno
a primavera ainda floresce
mas apenas quando a noite cai
_