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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Medeia



Medeia conseguiu três vezes que Jasão vencesse as duras provas que o pai dela engendrara para derrotá-lo. Ao ver-se vencido, o pai de Medeia tentou um golpe final, mas ainda assim Medeia e Jasão fugiram na Nau dos Argos com o irmão dela. Medeia para atrasar o navio do pai que os perseguia, desfez o seu irmão em pedaços lançando-os ao mar, porque sabia que o pai os iria recolher a todos e prestar-lhes no final uma homenagem fúnebre – o que permitiria o sucesso da sua fuga com Jasão. Pelo caminho, foram felizes e tiveram vários filhos. Porém, mais tarde, já em Corinto, o rei Creonte pediu a Jasão para casar com sua filha, Creúza,  Jasão, vitima de intriga, não resistiu ao pedido, informando Medeia que ela era uma simples mulher e não podia perder aquela oportunidade de se tornar um membro da família real. Medeia jurou vingar-se. Enviou um vestido coberto de joias e veneno que matou Creúza. Para além disso, matou os próprios filhos e levou os corpos consigo para que o pai, Jasão, não os pudesse sequer enterrar.

"Medeia matando os filhos" de Eugéne Delacroix

Carta aberta a um amigo

Amigo,

A propósito do que ela te disse:"Diz que me acha «duro» (muito desiludido, bastante esquivo, um pouco cínico). Enquanto contamos o que nos aconteceu desde os tempos do colégio, é visível a sua decepção comigo, "  - penso que é tudo  imaginação sua ou talvez um ideal que lhe foi alimentado pelas máscaras de outros. Se assim não fosse, estarias a trair as estações do ano, o ciclo da vida, a deliberação dos deuses. O outono é sempre assim - contou-me o meu pai que lhe tinham contado outros amigos - e todos os adjectivos que podemos atribuir a essa estação são sempre redutores.

Também é normal que estejas cada vez mais duro. Não há outra forma de proteger a ternura pelo inverno adentro.


Bom outono,
Luís

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Agarrado pela vida

"Mas, para dizer a verdade, toda a minha vida tenho tentado ser uma pessoa bastante medíocre. Fiz o meu trabalho, procurei atingir os meus objectivos, cumprindo as minhas obrigações e esperei pelo velho quid pro quo. Aquilo que recebi, como é natural, foi um valente murro na cabeça. Acreditava que tinha estabelecido um acordo secreto com a vida para me livrar do pior. Uma ideia perfeitamente burguesa." - Werner Herzog extraído do Blogue Malparado

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Obediência felina




Por acaso, não estou absolutamente de acordo. Eles realmente não obedecem, mas fazem favores.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Antígona

Antígona desejava dar uma sepultura ao seu irmão Polinice. Este que tinha comandado um ataque a Tebas, morreu a combater contra o seu outro irmão, Etéocles. Creonte, rei de Tebas, decidiu prestar homenagens fúnebres a Etéocles, devido a ter morrido a defender a cidade. Enquanto, ao cadáver de Polinice, ordenou que fosse lançado aos abutres e cães e que nenhum ritual fúnebre lhe fosse prestado. Antígona rebelou-se contra a ordem de Creonte e por suas próprias mãos enterrou e prestou os devidos cultos fúnebres a Polinice.Achava ela que todo o homem tinha direito a ser enterrado, independentemente do seu passado. Muitos em Tebas, pensavam como Antígona, porém ninguém ousou contrariar a decisão do rei.  Creonte inquiriu Antígona que afirmou ter sido ela a efetuar aquele ato. Creonte mandou enterrá-la viva. O filho de Creonte, Hêmon, era o noivo de Antígona e ao saber da condenação encerrou-se no túmulo com Antígona. Quando Creonte se dirige para o local da condenação para resgatar o seu filho, Hêmon ameça o seu pai com um punhal, mas em vez de matá-lo, decide-se suicidar. Ao saber da morte de seu filho Hêmon, Euridice, mulher de Creonte, também se mata.

Esta peça escrita 300 AC, continua uma imitação do real. Só assim se entende a sua persistência histórica e qualidade poética (segundo Aristóteles em "Poética", uma peça era uma imitação do real). Eu posso testemunhar que continua acontecer isto entre os homens: Tirania e despotismo gera desgraça a quem a pratica. Tenho pelo menos fé que assim continue.


Confidência

Tenho  a alma ferida,
por uma pátria que não entendo,
por uma língua que não conheço,
por um desamor vadio que me espera nas esquinas
e me apunha-la sem dó.

E dito isto resta-me continuar
como quem finalmente compreende
porque é o fado a cantiga da nação.

Queria fazer a guerra, mas não sou capaz.
Queria dar gritos, mas a rouquidão tolhe-me a loucura.

Sim, sei que tenho amigos (graças a Deus!)
Mas eles passam em suas barcaças
e acenam-me e gritam longínquos: “Viva, amigo!”
E depois seguem o curso dos seus rios
tantas vezes de marés avessas aquelas que me levam.

A minha resistência é a poesia.
Mas tão leve ela é
quando irrompem as águas impenitentes da história

da minha e da tua história.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sempre às sextas-feiras


uma gota de silêncio
caiu dentro de um copo
cheio de dias de azáfama

e logo
outra gota transbordou
cheia de gatos grandes e distantes

bebia em tragos largos
e as pálpebras semicerraram
três milímetros antes de um sono
quase sexo

"Que fresco aquele sabor
intensamente neutro
e aberto!"

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Salmo do homícida

Quem me dá a arma ?
Quem oferece o peito à bala ?
Onde me escondo e de quem ?

"Não matarás", escreveste tu, Senhor, nas tábuas da velha lei.

Mas os outros são o inferno, Senhor.
Não cabem na palma da tua mão,
feita de terra-mel
para os que contigo decidiram viver,
feita de terra-fel
para os que por mim devem morrer.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Amadeo de Souza-Cardoso


"Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade"
Amadeo de Souza-Cardoso

"Retrato de médico" - 1916



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Outubro

Qualquer coisa de ouro velho e abstrato invade o ar através do lento vapor desta manhã de outubro. As gotas da chuva miudinha desfazem-se nas folhas dos arbustos mais rasteiros, tornando-as tristes e vivas como seres pensantes, quando se detêm diante de um tom magoado de luz.  Os pássaros prometem-nos que não há pressa. Entre eles, nunca a houve verdadeiramente. A primavera está outra vez demasiado longe do horizonte e as sementes preparam as suas camas de orvalho nas veias do húmus sobrevivente da última estação quente. O poema, omnipresente e impotente, escreve-se no voo curto e débil  das primeiras folhas caídas. Em cima dos lábios, cantilenas sombrias entreabrem  frestas no peito do mais distraído pastor de máquinas.  


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