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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Há árvores...


                  Há árvores que dão frutos, 
                  outras que dão pássaros 
                  e outras, serenidade quanto baste.

Inside Llewyn Davis ou "O direito à ilusão"



Inside Llewyn Davis (A propósito de Llewyn Davis) é um manifesto do direito à ilusão. Numa história circular, onde a metáfora de Ulisses regressado a Ítaca transporta-se para o homónimo gato e para o próprio Llewyn, demonstra que o talento (Inside) e a personalidade de um homem determina o seu destino independentemente do seu sucesso. Llewyn acaba por aceitar o seu fado, a sua cidade (Nova Iorque) e a relação áspera com aqueles que o rodeiam e que o acham, cada um há sua maneira, um falhado especial. O gato que acompanha a história é um alter ego do músico, conotando a personagem com a eterna mística dos gatos: Orgulhosos, independentes, mas demasiados frágeis para se imporem. Digamos que à semelhança dos domésticos felinos, Llewyn também é apenas tolerado, como um animal de estimação,  por todos aqueles que lhe querem algum bem.Deixam-no inclusivamente dormir no sofá, como aliás também se faz  aos gatos caseiros.


 A música Folk é o pano de fundo. A seleção da banda sonora e a forma natural como as musicas vão acontecendo, ora como um canto órfico de Llewlyn, ora apresentadas com o travo de humor amargo e vulgar, é simplesmente genial. Só por ela, vale a pena assistir a esta fita.

Inside Llewyn Davis é um filme (levemenete) hollywoodiano dentro do espetro independente dos Cohen, como narrativa que nos deixa a sonhar e com vontade de aprender a tocar violão para pedir esmola na estação do Marquês. Tudo o que este filme apresenta é irrepreensível: Atores, banda sonora, argumento, fotografia, realização.


Só posso dizer outra vez: Obrigado, irmãos Cohen.


domingo, 29 de dezembro de 2013

Aquilino, uma literatura bem temperada

Portão e Capela do Amparo da Casa Grande de Romarigães - Freguesia de Romarigães, concelho de Paredes de Coura


Já chega de comida sem sal e as palavras alinhadas tão comummente. Ler Aquilino Ribeiro é como saborear uma iguaria bem condimentada e única. Os seus temas coincidem com  um Portugal rural, interior e iniciático. Transportam-nos às raízes da cultura lusitana como os coentros ao sabor típico de alguns pratinhos da nossa cozinha. As suas personagens assumem de peito-feito as suas incoerências e são vertiginosamente sádias. Cada parágrafo de "A Casa Grande de Romarigães" é uma pincelada deliciosa de um grande fresco. Tanto assim é, que apetece copiá-lo como fazíamos na escola primária ou mesmo como faz um pintor-aprendiz diante de um fresco de Giotto ou de uma natural pintura renascentista. Leiam com atenção os primeiros parágrafos do romance:




"O  vento, que é um Pincha-no-Crivo devasso e curioso,  penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista !



Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. (...) 



Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono...»



Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985



Então, que dizem ? Genial, não é? Parece a "Génesis" bíblica à escala da paisagem minhota.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O presépio de Greccio

   Na véspera de natal de 1223, estavam proibidos os dramas litúrgicos por todas as igrejas por ordem do Papa Inocente III.
Francisco de Assis partiu, com o seu inseparável companheiro, frade Leão, para Greccio - Italia. Francisco, com dispensa do santo padre, recolheu apoios de alguns homens relevantes na região, e, numa gruta abandonada, encenou um presépio. Convocou depois, ao som de campainhas, todos os habitantes de Greccio a se deslocarem à gruta. Nesse local, a missa ficou sob a responsabilidade do Cardeal. Francisco já doente - viria a falecer dois anos depois - falou aos presentes. Durante as suas palavras, ele e muitos outros dos presentes viram o Menino Jesus a tomar forma sobre os seus braços.

Bibliografia "O Presépio" de Pietro Gargano




"S.Francisco celebra festa do presépio" - Fresco de Giotto na Basílica Superior de S.Francisco em Assis (Italia)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Desertos


Praia da Fonte da Telha - Inverno 

























Aos nossos pés, às nossas mãos, aos nossos olhos ou apenas avançando sobre o pensamento, os desertos abrem-nos as portas do silêncio. Entregues somente a nós próprios, tornamos-nos a única  fonte da vida,  onde Deus nos alcançará sem dificuldade. Ali, onde  quase nada vive, podemos descansar sem ruído, sem dor. Apenas com o destino insólito do sol rasante sobre a cabeça.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Salmo a uma rocha atlântica

Lembras-me um pináculo do mundo antigo,
defronte do qual um novo druida reza.
E quanta inquietação encerras em teu hirto saber ?
E quanta dignidade e solidão em ti perscruto,
ó filha bastarda de um continente dissoluto ?
Procuro-te desde sempre
- ainda que apenas o entenda agora -
e só encontro mais perguntas, diante do teu ignoto vulto.

Há em ti algo que começa e algo que acaba.

Há um moribundo que, por fim, estremece
e um nado novo que, em segredo, berra.
Será aqui que começa ou termina a Terra ?

Olhando o céu, interrogo-o mais:

A quem realmente pertence este altar
onde o mar desposa a serra ?
Será paraíso ou inferno
ou apenas punhado de pó esquecido
na hora sempre repetida da incrível Criação ?

Quem mo dirá ?

Quem sabe não responde.
Apenas um silêncio se traduz
no marulhar surdo das ondas.

Sobre a pedra,

o corvo marinho ensaia um voo
como quem tenta, inábil,
abraçar o horizonte entre as  suas asas.
Parece que leva, quieto e alçado,
sob as  patas
um continente cansado
ao encontro de um mundo novo.


Praia da Ursa - Azóia - Sintra



Praia da Ursa - Azóia - Sintra


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Um barco no deserto

"Porque construiu,  Noé,  um enorme barco no deserto ?" - perguntaram todos. Os homens riram. A mulher resmungou ao deitar-se e os filhos pensaram "Coitado do pai. Está perto, a sua hora.".

Parecia insanidade, um ato sem nexo, uma criação bizarra. Parecia muita coisa, mas era apenas fé.

 "Entrada dos animais na arca de Noé" - Grechetto

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