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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Salmo a uma rocha atlântica

Lembras-me um pináculo do mundo antigo,
defronte do qual um novo druida reza.
E quanta inquietação encerras em teu hirto saber ?
E quanta dignidade e solidão em ti perscruto,
ó filha bastarda de um continente dissoluto ?
Procuro-te desde sempre
- ainda que apenas o entenda agora -
e só encontro mais perguntas, diante do teu ignoto vulto.

Há em ti algo que começa e algo que acaba.

Há um moribundo que, por fim, estremece
e um nado novo que, em segredo, berra.
Será aqui que começa ou termina a Terra ?

Olhando o céu, interrogo-o mais:

A quem realmente pertence este altar
onde o mar desposa a serra ?
Será paraíso ou inferno
ou apenas punhado de pó esquecido
na hora sempre repetida da incrível Criação ?

Quem mo dirá ?

Quem sabe não responde.
Apenas um silêncio se traduz
no marulhar surdo das ondas.

Sobre a pedra,

o corvo marinho ensaia um voo
como quem tenta, inábil,
abraçar o horizonte entre as  suas asas.
Parece que leva, quieto e alçado,
sob as  patas
um continente cansado
ao encontro de um mundo novo.


Praia da Ursa - Azóia - Sintra



Praia da Ursa - Azóia - Sintra


1 comentário :

Duarte Belo disse...

Considero a praia da Ursa um dos mais belos e misteriosos lugares de todo o litoral português, mesmo, talvez, de todo o território de Portugal. Este "Salmo a uma rocha atlântica" coloca-nos perante interrogações que parecem atravessar, sem resposta, sucessivas gerações de seres humanos, eventualmente desde o período em que um primeiro olhar consciente terá repousado o seu caminhar sobre esta finisterra. A nossa perplexidade sobre o planeta que habitamos vai, seguramente, continuar por intermináveis gerações. Na praia da Ursa encontramos um não menos enigmático desejo de expressar o pensamento, pela palavra, pela fotografia, por todas as ferramentas de que hoje dispomos.

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