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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Até sempre, Rohmer !



A morte do cineasta francês Eric Rohmer, no dia 11 de Janeiro, em Paris, aos 89 anos, encerra um importante capítulo da história do cinema.

Nascido Jean-Marie Maurice Schérer em 21 de março de 1920, em Tulle (França), Rohmer foi um dos maiores nomes do cinema e figura central da nouvelle vague – “nova onda”, movimento do final dos anos 1950 criado por jovens críticos como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut (1932-84) que questionava o cinema clássico francês.

Rohmer era conhecido por seu estilo intimista, com filmes sobre desencontros amorosos que colocavam a palavra no centro da ação cinematográfica. Os diálogos do seus filmes tomavam a forma de divagações filosóficas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ilusão

Quem nunca sentiu que por detrás de tudo o que faz correr a vida está a ilusão?

Se retirarmos tudo aquilo a que chamamos Ilusão ou os mecanismos dedicados à criação da mesma, o que fica?

Animalidade, instinto de sobrevivência, o presente apenas, o bem-estar instantâneo...

O futuro é o pai da ilusão. Não conheço nada nem ninguém que tenha verdadeiras ilusões sobre o passado, a não ser que esse mesmo passado ilusório condicione as ilusões do futuro. Nesse futuro onde projectamos o sucesso, a saúde, a felicidade e, num registo quase bíblico, a esperança de encontrarmos Deus, um paraíso à nossa medida e uma espécie de reconhecimento transcendental após a nossa morte.

Quando sei que alguém mais próximo faleceu, fico ainda mais triste porque me lembro da infindável cadeia de desejos e afectos que se perderam. Esse desejo que enquanto projecção futura e demasiado diáfana toma a forma de ilusão. Todos estes desejos e afectos, por generalização ilusões, são o alimento do martírio ou sacrifício a que somos votados no duro dia-a-dia – impedidos quantas vezes de nos cumprirmos como gatos ( esses verdadeiros deuses sensíveis e contraditoriamente humanos). Quem legitima esta espécie de condenação ou veredicto auto-imposto, a não ser um estádio superior de existência, por si só, uma ilusão - não fossem os humanos (o único ser vivo que conheço bem) um fonte inesgotável de ambição e incomodo.

Outra pergunta: A ilusão é causa da vida ou da sujeição a que nos entregamos num aquário a que chamamos psique – resultado da vivência, cultura e genes que nos pré-determinam e que são fruto de um processo de evolução natural antiquíssimo ?

Como diria, Alberto Caeiro: “A metafísica é uma consequência de estarmos mal-dispostos” e só por isso escrevemos pequenos ensaios sobre generalizações como versa este tema.

Povoam a minha secretária, onde neste momento onde me encontro, um conjunto de molduras com fotos de crianças da minha família (filho e sobrinhos). Na estática dos seus olhos, existe inquietação, resignação, curiosidade, bonomia e naturalmente simpatia. Naturalmente, lembro-me do Pessoa: “Onde estarei eu em criança ?”

Se eu estivesse entre estas fotos, o que via, pensava e sentia. Que ilusões teria ? Decerto poucas e boas.

A minha ama, a D.Lurdes, era e ainda é (apesar da avançada idade) uma maravilhosa analfabeta que sem querer me ensinou o mais profundo lema de Saint-Exupéry: “É apenas com o coração que se vê. O essencial é invisível aos olhos.”.

Tal foi a marca que terá deixado este constatação imensa e intensamente repetida durante a minha tenra infância, que muitas vezes sou surpreendido por um forte e inexplicável sentimento que causa em mim uma sensação de inquietação, excitação e desconfiança para comigo próprio:

Como posso num mundo regido por cadeias de pensamentos lógicos, tentar argumentar dizendo aos meus interlocutores: “É assim, porque sinto” ?

Só consigo gerar uma argumentação válida, através de um processo de reengenharia que parte da conclusão obtida através do sentimento e pretende alcançar, como produto, os argumentos lógicos que quase sempre se escondem nesse imensurável mar do subconsciente.

Se este processo de dedução dos argumentos não é bem sucedido, ou seja, não os encontramos ou por dificuldades de comunicação não os transmitimos de forma plausível, enredamo-nos numa áurea de teimosia e de conflito generalizado com os outros e com nós próprios.

Encontrei para este imbróglio social, não diria uma solução, mas antes um escape travestido de saída de emergência: A poesia.

Poesia , uma forma de expressão onde a “mentira é verídica”, como disse o poeta espanhol Angel Crespo. Poesia lírica, onde o subconsciente, não de uma forma hipnótica, mas onírica e estética, consegue argumentar ainda que num contexto ilógico, ilógico no sentido ortodoxo da conceito. Criam, os poetas, desta forma, uma ferramenta retórica e científica se atendermos que parte de pressupostos válidos no âmbito do individuo e alcança conclusões válidas nesse mesmo contexto.

Mas se o homem é o fim último da natureza, a poesia pode bem ser uma janela indiscreta entre eles: Homem e Natureza.

À boa maneira discursiva, fecharei o ciclo deste pequeno ensaio, tentando concluir que a ilusão da razão, alicerçada na nossa emoção e intuição é a mais forte e auto-determinada das motivações. Tão forte que nos pode conduzir a algo fatidicamente ou excepcionalmente real, ainda que essa realidade não seja mais que a mais intima ilusão.

Talvez saltemos apenas de ilusão em ilusão com o fito de concluirmos, cito Pessoa, que “A única conclusão é a morte”. Até que a morte nos separe, a ilusão é um direito mas sobretudo um dever.
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