FAZ-TE MEMBRO DESTE BLOG E RECEBE NOTIFICAÇÕES DOS NOVOS POSTS

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sol Invictus



Os dias duravam cada vez menos. Jau sabia-o. reparou que a sombra da ponta da estaca estava cada vez mais prolongada.O sol estava cada vez mais baixo. Todos os dias, Jau esperava pelo ponto máximo e riscava, no chão, o limite da sombra (ao meio-dia).Quando terminaria aquela descida progressiva ? Jau não informara ainda a sua tribo, mas desconfiava que o sol estava doente. Mais dia, menos dia, o sol deixaria de aparecer como habitual por detrás dos montes. Até que certo dia, Jau teve uma agradável surpresa. A sombra estava agora menor. Ao meio-dia, o sol estava mais alto que no dia anterior. O sol afinal não queria morrer. Apenas adormecia durante um período para  se reerguer depois. Jau contou, aliviado, a boa nova à sua tribo. E a partir desse dia, todos os anos, se celebraria o renascimento do sol (depois do solstício de Inverno).

sábado, 28 de novembro de 2009

Pátio dos Deuses -Parte III

Ano 72 da Nova Era ( antigo ano de 2090 DC ).

Em 1998 DC, o meu avô brincou neste pátio. Aliás, o único vestígio que ficou depois de terem arrasado os prédios antigos e plantado este bosque. Naquele tempo, as mentes morriam com os corpos e as pessoas trabalhavam 7 horas ou mais por dia. O capitalismo estava, como ainda hoje, no auge. Porém, as pessoas estavam mais interessadas em ter coisas materiais do que tempo, árvores, amigos ou boas conversas. Eram outros tempos.

Felizmente, os deuses daquele velho pátio morreram. Nem os Deuses são eternos. No ocidente, de vez em quando, mandamo-los dar uma “curva ao bilhar grande”, quando já não servem para nada. Sobre a sua memória, fazemos aquilo que em gestão chamamos Inovação Incremental. Isto é, não rompemos completamente com o modelo anterior, apenas acrescentamos uma camada – que neste caso são tão-só novos deuses.

Dizem que tudo começou naquele dia em que o meu avô pediu ao seu pai, para escrever um post no Blog, inserido numa manta de retalhos narrativos que chamavam “Pátio dos Deuses”. Um Blog era uma espécie de diário electrónico que existia numa rede de dados de dimensão mundial, chamada World Wide Web.

O meu bisavô ficou confuso. Porque razão tinha o filho pedido-lhe para escrever aquele post ? Inventou uma pequena história de ficção científica para despachar o assunto entre tantos outros assuntos que tinha na sua agenda.

Mal sabia ele, que todas as profecias daquela short-story se tornariam mais tarde realidades.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Pátio dos Deuses - Parte II


Os serões tardios do pátio dos deuses tinha a companhia especial do meu amigo Nelson. Um rapaz peculiar na sua essência. A sua voz era fina, e aos nove anos ainda não falava correctamente. Na nossa turma era o elo mais fraco, quem diria que ele seria alguém. É normal. A natureza filtra os melhores. Os fracos caem nas teias do fado e são esmagados no desespero. Bem, mas voltando ao essencial deste fulano. Passávamos horas no pátio, brincávamos, imaginávamos, atirávamos pedras ao comboio, naquela altura nem nos pareciam pedras, talvez o utilize o termo meteoros para qualificar aquilo que realmente atirávamos. Esquecíamos o leito do destino. Éramos livres . O Nelson era o meu melhor amigo, porque era o mais fraco, sempre amei causas perdidas. Ainda hoje procuro causas para lutar . Os anos foram passando rápido, vertiginosamente rápido. Fomos engolidos pelas marcas do tempo .


Hoje já nem sei quem é o Nelson. Aquilo que ele verdadeiramente é. Como é que as chagas do tempo fizeram–me esquecer os fracos ? Agora só me lembro dos vencedores. Em mais um momento introspectivo, questiono o porque do esquecimento.


Eu queria mesmo lembrar-me deste derrotado. Ele era mais que um simples esgazeado para mim.

Ouvi dizer que está em Leiria. Empacotou os argumentos da infância e é recluso de uma melodia melancólica das teclas de uma teclado informático . Esta angustia dá-me agonia interior. É algo com que não me conformo. Eu acho o passado tão confortável e cada vez mais tenho pavor da mudança. Quero abraçar o Nelson. Dizer-lhe que volte, porque o pátio espera-o. E a infância, essa continua sentada no banco do parque à espera que ele venha com a sua fraqueza .

Dedicado ao meu amigo Nelson, um abraço e um desejo sincero para a sua vida futura e para os seus sonhos.



Pedro M. de Castro

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia de Finados


Triste.

Choro, fazendo cair as folhas sobre o meu entendimento.

Ontem, página mesclada de verde e morangos.
Hoje, apenas página.

Avanço.

O sol pôe-se num crepúsculo de Deuses por venerar.

Luto.

Refem,
entrego-me às correntes de Novembro.

Os sinos dobram até ao encantamento.

Adormeço.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Páteo dos Deuses - Parte I


É a festa da folia no paraíso. Já os deuses culminaram as suas crenças em nós. No seu pátio passam horas a arrancar historias e murmúrios do passado como tentáculos majestosos. No pátio ninguém é rei , ninguém é discípulo, não há ordens, nem assembleias, nem hipocrisias é apenas um pátio perdido na assombração da periferia lisboeta. O pátio onde nasci, vivi e provavelmente morrerei, significa o ex libris da minha vida. Tantas marcas de vidas cravadas naquele pátio tosco, tantos suores, ambições, nervos, desgostos e amores . Lembro–me de tudo o que por lá já passou, dos mais insignificantes aos mais relevantes. Sei tudo isto porque aquele pátio estranho, cinzento e apagado é a minha vida, é a minha alma. Hoje vejo as calçadas como passado, outrora implicavam futuro. Mas tudo o que tem um grande passado, tem uma grande historia.

domingo, 27 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"Big Fish" de Tim Burton



Azar do poeta que migra com as palavras. Deixa-se levar pelo conceito abstracto da migração das aves, essa anual viagem que nunca viu. Vive da ilusão que cultiva. E ela cresce como uma erva trepadeira que se enreda aos seus pés impedindo-o de se mover.


Quem vive dentro de si, vive?


A questão demora uma vida a responder. Uma geração ? Ou ficará mesmo nos anais da História da espécie como um dos seus hábitos antropológicos?


No momento concreto do apuramento do saldo, quando a matéria, o corpo ou a vida conta, quem acreditará no poeta ? Quem lhe seguirá os passos e os pensamentos ?


A importância do poeta ganha acuidade depois de ver o filme "Big Fish" de Tim Burton.


Remonta à época clássica, a profissão de poeta como contador de histórias. Por ironia, a civilização grega, a quem se atribui as primeiras tentativas sérias de desmascarar o mito, é também aquela que tece e promove, com forte motivação e apoio do Estado, o exercício do contador de histórias (Teatro/Poesia) . Será o mito uma tentativa de conceptualização da realidade? Pode a realidade expressar-se apenas em números como alegariam os Pitagóricos ou necessita a raça humana de uma abordagem poética válida e humana dessa realidade que nos envolve?


"Big fish" parece um filme simples, mas nem sempre simplicidade é sinónimo de banalidade.


Talvez a imaginação seja a mais pungente marca da Humanidade. Não a deixemos castrar com pensamentos únicos ou pragmatismos precipitados

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Das cem lições de punk para a vida eterna..



Por inícios da década de noventa, uma luz sedenta de vida emergia sobre o nevoeiro habitual de Seattle . Um som que se distinguia de todos os outros. Existia, na época, uma especialidade regional musical , onde só os músicos de Seattle sabiam a forma mágica para electrificarem os nossos ouvidos com riffs fortes, musicas penetrantes e letras, quase curativas, para o espírito. Nirvana , Soundgarden , Alice in Chains , Pearl Jam foram estes quatro nomes que mais se distinguiram, dando o pulo de Seattle para o muro. Mas como em qualquer outra causa, eram necessários mártires. Algo que também não escapou a este movimento . O primeiro e mais médiatico, Kurt cobain(vocalista dos nirvana) - o príncipe do Grunge. Hoje ele transporta como fardo o ícone daquela geração . Em 1994 , no dia 5 de Abril é encontrado sem vida em sua casa, por um electricista . Ao seu lado estava a espingarda que tinha hipotecado um dos maiores valores musicais do nosso século. Mas ao mesmo tempo estava criada a lenda . Os Nirvana tinham brilhado, sobretudo com o álbum Nevermind, o segundo álbum de originais da banda. Todos os álbuns que se seguiram foram igualmente consideradas obra - primas. Sem duvida, enchia-nos os ouvidos . Alice in Chains outra banda deliciosa de se contemplar também sofreu a perda da sua maior figura Layne Stanley (vocalista) .Os Alice in Chains, que tinham um tom mais duro e mais próximo do heavy metal, também tocaram em muitos bons ouvidos, principalmente pela grande posse em palco e pela a voz penetrante do seu vocalista . Onde pára esta geração de ouro ? Porque ainda continuamos pendurados a playlists sem nexo ? … voltem estão perdoados

Pedro M. de Castro

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Belenenses "à FC Barcelona"

Futebol ao primeiro toque temperado com colectivismo, técnica, oportunidade de passe e desmarcação. O pequeno Belenenses fez lembrar o enorme FC Barcelona. Há alguns anos atrás, num jogo a contar para a taça UEFA, os azuis do Restelo ganharam mesmo por 1-0 ao Barcelona de Shuster e Lineker.

Esta movimentação de ataque do jogo que opôs o CF "Os Belenenses" à Naval 1º Maio merece 2 minutos de atenção. Pura arte!

Façam o favor de ser felizes


Naquelas tardes da década de 80, metia uma das cassetes do Raul Solnado no gravador e matava o meu tempo de infância em casa da minha avó. Sabia quase de cor, como agora os jovens sabem os textos do "Gato Fedorento", muitos daqueles sketches humorísticos. Depois veio o Herman e depois os "Gatos". O Solnado foi assim o primeiro cómico da "minha vida".

Extracto da "Guerra":

"- Está lá?!... É da guerra ? Podiam suspender a guerra que o nosso capitão está com uma dor de cabeça...Não!... Andava a passar revista e meteu lá a cabeça e agora não consegue tira-la...Disparar ? Obrigadinho, se disparassemos saia a cabeça e saia o resto...Já agora vejam se tiram dai o arame farpado que nós aqui já não ganhamos para calças".

Até sempre, Raul

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O nosso dinheirinho



Recomendo este livro escrito por um jovem Engº Informático que, apesar da sua pouca experiência, nos dá algumas orientações muito objectivas sobre a forma como deveremos gerir as nossas finanças pessoais. Poupar e Investir são o mote do livro. Deixo aqui um excerto retirado do site oficial do livro:


" A vida não está fácil para os portugueses. O aumento das taxas de juro e a diminuição do poder de compra levam a que a maioria de nós viva numa permanece correria para pagar as contas, sem nos apercebermos de que estamos a desperdiçar o que de melhor a vida tem para oferecer.

Chegou a hora de fazer uma pausa e pensar. O que é o dinheiro? Que valor lhe damos? O que podemos fazer para pô-lo a trabalhar para nós? Pedro Queiroga Carrilho , formador especializado em finanças pessoais, começou a fazer essa reflexão há quase uma década. Rapidamente se apercebeu de que, mais importante do que o dinheiro que ganhamos é o dinheiro que conseguimos pôr de parte e investir. Mas como? Por onde começar?

A resposta está aqui, no primeiro guia de finanças pessoais escrito por um português e a pensar nos portugueses."**

** Retirado do site oficial do livro: O seu Primeiro Milhão

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Algarve


Algarve moreno, sereno - quase quente e quase húmido. Serás Europa ou África ? Aguarela de um continente que se esbate numa velha porção de oceano, quase mar, quase rio, quase um paul onde uma cegonha, à calma, pasta.

As praias bordam-te de um areal nimbado de estátuas antigas de um continente que o mar engoliu. Quem quer saber de ti, ó terra moura ?

És um sonho no centro da noite. Aquele sonho que nunca lembramos ao amanhacer e dele fica apenas o sabor.

Lagos, Julho de 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Portugal em directo - Portugal Positivo


Em paralelo com os telejornais mais ou menos éticos, mais ou menos interessantes, mais ou menos demagógicos, existe um serviço de noticioso que nos enche de esperança: "Portugal em Directo" na RTP1. Neste espaço, ficamos a conhecer as iniciativas da sociedade cívil, o dinamismo das entidades locais e regionais. Sente-se o "Pais" crescer. Mas infelizmente, deve ser um espaço noticioso com pouca audiência. A intriga, a calúnia, a desgraça para todos os gostos e escalas são uma refeição demasiado gulosa para quem mais do Informação deseja o "espetáculo do que informação".

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Desenhos do quotidiano


A era do digital fez crescer exponencialmente o numero de fotos que quase todos registamos. Banalizou a imagem. As imagens sentem-se pouco admiradas e acarinhadas. É preciso perder tempo com elas (imagens). Observá-las e desenhá-las devagar.

Nos tempos recentes, várias publicações e blogs sobre "desenhar o quotidiano" têm surgido num esforço de resistência histórica e sentimental.

Deixo-vos um blog importante para iniciarem a navegação nesta matéria: Diário Gráfico de Eduardo Salavisa, autor de Diários de Viagem

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pelas serras da Amadora...

Hoje resolvi conhecer a Necróple de Carenque, situada no concelho da Amadora.




Depois de ter visitado o local, subi mais um pouco até encontrar um agrupamento de 3 moinhos em ruínas.




Um dos moinhos tinha junto dele um marco geodésico que assinala o ponto mais elevado de um local. Fui até esse local e fiquei admirado com a amplitude da vista. Poderia ver a Oeste o mar da palha (Seixal, Alcochete,...) e a Oeste, a Serra de Sintra. A Norte, dislumbra-se todo o Vale de Loures e a Sul, a ponte 25 de Abril e lá por trás a Serra da Arrábida.







Nunca pensei que na Amadora existisse um local assim. Aconselho o passeio, enquanto "Betão", que avança já atrevido, não destruir este desanuviante panorama.

Links interessantes: ARQUA - Ass.Arqueologia da Amadora

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ala Arriba!


Ala Arriba: Filme português estreado em 1942 e realizado por Leitão de Barros foi a 2º docuficção (género documentário/ficção) da história do cinema. O filme passou esta semana na RTP Memória e dou-lhe 17 valores. Razões para este quase "Muito bom" ? - A vertente documentalista-ficcional, a fotografia, o argumento e o objecto filmatográfico único. O filme é interpretado por pescadores, que emprestam ao filme uma genuidade enorme. Não só no sotaque e maneiras, mas também no perfil psicológico das personagens. Não tenho dúvidas que aquele é o perfil padrão do célebre pescador-poveiro: Corajoso, pragmático, tradicionalista e lutador.

As cenas da procissão e chegada das embarcações (ala arriba) à praia são pungentes e belíssimas.

Curioso o facto do filme ter patrociono do Secretariado da Propaganda Nacional durante o Estado-Novo, e, ao mesmo tempo, documentar a precaridade ( e ao mesmo tempo a heroicidade) da profissão de pescador, onde se morria a 10 metros da praia.

A única medida de prevenção - para além dos barcos entrarem um a um na barra, de modo a que existisse sempre uma tripulação de vigia enquanto outra entrava na barra - era rezar, rezar e rezar. Em termos políticos, um caso de irresponsabilidade social e imobilismo.

Bem hajam as comunidades ribeirinhas da Póvoa e Vila do Conde, que bem merecem!

Ala arriba na Wikipédia

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A variabilidade intra-específica


A existência de variabilidade intra-específica possibilita a actuação da selecção natural, i.e., quanto mais heterogéneo for o património genético de uma espécie, ou de um habitat onde essa espécie nidifica, maiores serão as possibilidades de selecção natural e de adaptação dessa espécie à mudança. Colocando agora a matiz interdisciplinar e cruzando a biologia com a sociologia, diria que também a esta variabilidade funciona dentro das comunidades, quando balizada por príncipios éticos e morais aceitáveis. Logo, percebo que uma cidade cosmopolita, ousaria mesmo a usar o termo "dirty", é obviamente mais competitiva e flexível relativamente a outra onde o património genético seja mais homogéneo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Arrebaldes


Viva o lento! Substituir o carro pelas pernas, a máquina digital pela caneta e bloco de notas, combatendo assim a velocidade (mais que furiosa) que nos dificulta a analise e deslumbre dos detalhes.

Em redor de de Lisboa subsistem ainda alguns apontamentos de um urbanismo da primeira metade do século XX. Ao caminhar ao longo da ribeira de Barcarena ou entre as quintas de Belas encontram-se vestígios de uma forma de estar tão próxima no tempo e tão distante no modo de habitar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Três em um !

I

Sem filosofia não haveria ideias e vice-versa. Sem matemática não existiria um modelo de aferição concreto do mundo físico. Sem forças militares não existiria pátria. Por esta última razão mantenham-se sintonizados com os posts de alguns especialistas em blogmilitar.blogspot.com para não morrerem estupidos!(Humor negro!)

II


O caos onde germina a ilusão chama-se Amadora. Cidade-berço dos Buraka Som Sistema oferece agora os Macacos do Chinês. Da mesma forma já antes tinham surgido os Da Weasel em Almada e o Sam, The Kid em Chelas. Mesmo o novo fado dos Deolinda tem um perfurme sub-urbano. Assiste-se nos novos "Booms" musicais a uma forte ligação entre o projecto e o bairro. "Rolling na Reboleira" é um expoente desse vector.

III

O novo projecto do Jardim Botânico de Lisboa atribui-lhe mais três hectares de dimensão. Este novo espaço preapara-se para receber para um Hard-Garden com espécies tipicas dos solos portugueses. Espécies que necessitam de pouca água e de adaptação fácil. Afinal de contas ainda há boas notícias!

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Tradutora


tu lês. antes de ti, ela muda as palavras. antes dela,
eu escrevo. eu passei por aqui, ela passou por aqui,
tu passas agora por aqui.

entendes isso? ela está onde tu estarás. eu estou onde
ela estará. eu corro pelas palavras, ela persegue-me.
tu corres atrás de nós para nos veres correr.

eu escrevo casa e continuo pelas palavras. ela segura
as letras da casa e escreve vida. tu lês vida e entendes casa
e vida. eu não sei o que entendes.

eu corro. ela corre atrás de mim. tu corres atrás dela.
não existimos sozinhos. sorrimos quando paramos,
quando nos encontramos. aqui.

José Luís Peixoto "A Casa, a Escuridão"

terça-feira, 17 de março de 2009

Arquitectura é para comer !


"Ó subalimentados do sonho/ A poesia é para comer!" - escreveu a poetisa Natália Correia.

Quando vi as imagens da maquete do novo estádio idealizado para Luanda acolher a abertura e a final da CAN 2010 (Campeonato Africano de Futebol), lembrei-me de acrescentar "A arquitectura também é comer".

Deve-se experimentar um profundo estado onírico e humano ao assistir a uma partida de futebol dentro de um poema de betão.

O estrutura do equipamento desportivo inspira-se numa rara e antiga planta angolana: Welwitschia mirabilis. Este testemunho da história natural originária do deserto da Namíbia (Norte da Namíbia e Sul de Angola) e tem como principal característica a sua resistência ao clima extremamente seco do deserto.

Existe uma lenda em redor das capacidades secretas desta planta que lhe atribui o sub-nome de "mirabilis". Acontecia que muitos viajantes e naturalistas desapareciam sempre que o seu percurso ou lugar de estudo se relacionava com as welwitschias. A partir deste fenómeno, nasceram explicações mágicas e demoníacas. Veio a descobrir-se que, sendo a única planta viva de um deserto, ali se abrigavam muitos animais venonosos como cobras e escorpiões. Eram afinal animais e, não a Welwitschia, os responsáveis pelos desaparecimentos.

sábado, 7 de março de 2009

O efeito borboleta, a juventude e as drogas

Uma célebre função matemática denominada por Efeito Borboleta transforma valores iniciais com pequenas diferenças em resultados finais muito distantes (ver Wiki). A representação gráfica no referencial cartesiano lembra as asas de uma borboleta e dai o seu nome de baptismo.


De forma reforçar esta ideia do efeito, existe uma expressão popular que explica o fenónemo, exemplificando que "o movimento do ar produzido por o bater de asas de uma borboleta no Japão, pode provocar um tufão na Amazónia".

Este modelo aplica-se, no meu entender, à juventude e aos seus estados de maturação consequentes. Pequenas diferenças comportamentais entre dois individuos neste segmento etário, poderão produzir, no futuro, diferenças substâncias de diversa ordem ( Social, económica ou física).

Por esta razão, jovens e educadores deverão prestar muita atenção a pormenores que podem ser determinantes. Um deles é o consumo de drogas ditas leves. Cuja leveza, é apenas uma aparência inicial. Quem na geração X (hoje entre os 30 e os 45 anos) não teve um ou mais amigos que morreram para não falar dos inúmeros futuros destruídos ?

O consumo de drogas pode parecer uma diferença esbatível no futuro de quem as consome, mas, na maioria dos casos, não o é.

Referências: Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O musgo


Reparei hoje que, no canteiro da varanda da nossa casa, onde nada vinga ou floresce, um verde e rasteiro musgo alastrava rente à terra, dourando-a de uma luz-esmeralda e singela. Senti de súbito uma dupla esperança: A esperança do verde e a esperança de quem resiste. Era como se alguém gravasse, naquele punhado de terra, um recado para nós: “Mesmo no mais estéril e adverso lugar do mundo, onde vento estripa qualquer vontade e o sol inclemente incinera últimos esforços de um redentor milagre, uma minúscula planta anunciasse uma forte vontade de viver.

No dia-a-dia, quando tudo o que esperávamos de ventura e boas-novas, teima em não comparecer, devemos estar atentos aos cânticos que o Deus das pequenas coisas nos segreda.

Não eram frondosos e férteis arbustos que cresciam no canteiro da nossa varanda. Em vez deles, pequenos tufos de microscopias folhas. Mesmo assim eram tão belos e íntimos que me encheram de fé. Daquela fé ou generosa magia que fez renascer a Fénix das escassas cinzas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Shiva e a Destruição


A religião hindu é composta por uma miríade de Deuses. Existem contudo três divindades principais: Brama (O criador), Vixnu (O preservador) e Shiva (O destruidor).

O conceito do deus-destruidor não existe no âmbito da teologia cristã. Porém, quando pensamos num ciclo renovador a caminho do Nirvana, faz todo o sentido que alguém tenha o dever divino de destruir para que algo de novo possa nascer no seu lugar. Afinal, é muitas das vezes esta a lei da natureza animal ou vegetal.

Imbuído provavelmente neste espírito de aceitação da morte, escreveu assim um poeta italiano, Peter Barone, que se radicadou, desde os anos 60, nos Estados Unidos da América:

Destruição

Sufrágio da Destruição.
Razão da Renovação.
És o demónio mais antigo.
Dou-te o meu culto e o meu toque.
Personalizo-te.

Sozinho no teu espectro, sinto a trompa da vida
a ecoar sobre o oiro da minha existência.
A ti suplico-te que destruas e renoves,
que me mates, se já não fizer sentido.



Peter Barone

Newark - NJ - 1973
_